O nosso Santo no céu, nosso provável Santo na honra dos altares. Autorização para abertura do Processo para sua Beatificação. Será o primeiro na Arquidiocese de Juiz de Fora.. Várias graças a ele têm sido atribuídas. Faça seu pedido...espere e será atendido. Por Fatima Helena Oliveira de Araújo e Araújo, por tantas graças alcançadas! Obrigada Padrinho Vigário!
sábado, 6 de dezembro de 2008
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Monsenhor Marciano
O Emancipador.
( do livro de José Marinho de Araújo “ Vida e Obra de Monsenhor Marciano”).
“O povo de Santa Rita de Jacutinga ansiava por sua emancipação administrativa municipal. E, esse anseio passou a ser uma das preocupações do Vigário. Esboçara-se, ainda muito cedo, quando a localidade começou a mostrar- se com aspectos de cidade, e a vida de seu distrito mostrou-se pujante, crescente e cheia de possibilidades futuras. E bem próximas.
Corre o ano de 1922. Elementos de destaque na localidade, chefiados por Padrinho Vigário, pleiteiam juntos às autoridades competentes a elevação do distrito à vila. Naqueles dias, vila constituía sede de um município, com um termo judiciário. O nome local seria dado à sede de mais uma comuna mineira. Nesse ano, leva o Vigário à capital do Estado, uma comissão, a fim de pleitear a realização do maior ideal do povo a que vinha dirigindo espiritualmente, com sabedoria e santidade. Mas, a injustiça dos homens não o permitiu, assim exclamava o Monsenhor.
Em 1943, empreendeu nova campanha cívica. A de ligar todos os homens da terra em que vivia, para que ela recebesse o título de cidade. Faz fundar, no dia da Padroeira local, um comitê pró-emancipação administrativa.
Convida a todos, num chamamento justo e patriótico. Todos o atendem. A reunião era de grande finalidade.
Após a missa, às catorze horas ela se deu.
Abre-se aqui, um parêntese, para esclarecer que o Padrinho Vigário começava a celebrar a missa dominical, às vezes depois do meio dia, indo até as 13 e meia horas.Missa longa, e o padre sem alimentos!... Quantas vezes ficava a esperar alguém que vinha de longe, retardado pela chuva ou outra circunstância, para dar início ao ofício religioso. Era seu hábito.
De fato, logo após a missa, às catorze horas, as salas e demais dependências da casa paroquial, enchem-se de grande massa popular. Tamanho foi o número de pessoas presentes, que se tornou impossível a realização dos trabalhos, no interior da residência do Padrinho Vigário. Resolve-se, então, trazer para a via pública, a mesa onde se deviam assentar aqueles que iam dirigir os trabalhos. E um dia esplendido iluminado por um sol de maio, muito contribuiu para que isso se realizasse.
A banda de música local, aquela que tem o nome de “Corporação Musical Monsenhor Marciano” estava presente. Toda em seu uniforme branco. Abriu a sessão , com movimentada peça – um dobrado.
Monsenhor levanta-se e, cheio de alegria e fé nos destinos de sua freguesia, explica:
- O motivo dessa reunião, para a qual convoquei todos os meus paroquianos, é o de pedir ao Governador de Estado, a tão reclamada e justa emancipação política e administrativa municipal de Santa Rita de Jacutinga. Dirijo um apelo aos corações de todos aqueles que nasceram e vivem sob os olhares de Santa Rita, nossa excelsa Padroeira, a unirem-se, no momento que atravessamos. Devemos adotar um só ponto de vista, a fim de conseguirmos o que desejamos e que tanto almejamos- a nossa emancipação política. Depositaremos a melhor confiança no espírito de equidade e justiça do senhor Governador de Estado, para que sejam coroados de êxitos os desejos do povo desta terra.
As suas últimas palavras foram abafadas por estrepitosa salva de palmas. A banda musical executa o “Hino a Monsenhor Marciano”. Momentos de grande vibração e de melhor emoção. Todos , de pé, ouvem o hino. E dos lábios de muitos circunstantes saíam a letra de tão bela composição.
Faz-se uma eleição. A dos membros do Comitê. E redigido pelo próprio punho de Monsenhor, foi lido um pedido endereçado ao Governador de Estado, solicitando-lhe a criação do município de Santa Rita de Jacutinga. Esse pedido foi subscrito por todas as pessoas presentes.
Outras reuniões se realizaram, em casa de Padrinho Vigário, discutindo-se, nelas, assuntos de transcendental importância para o cometimento a que se entregara o Vigário.
Faz longa viagem a capital do Estado, chefiando uma delegação, para que forçasse ao governo a emancipação local. A causa se tornou santa. Porque a ela abraçou Padrinho Vigário, dedicando a ela toda a sua existência.
Há necessidade de uma pessoa de prestígio junto ao Governador. Outra não seria senão o senhor arcebispo.
A comitiva hospeda-se em um dos hotéis da cidade vergel. Monsenhor fica em descanso. Uma comissão, composta de quatro membros se dirige ao Palácio Cristo-Rei, residência de Dom Antônio Cabral.Situa-se na Praça da Liberdade, bem defronte de Palácio do Governo.
Aguarda-se a audiência do senhor Arcebispo. Este chega. Ao ver as pessoas presentes, diz:
- Se os senhores vieram, aqui, para tratar de emancipação do município, peço-vos não entenderem comigo sobre tal assunto.Não desejo envolver em política e nem tampouco me envolver com políticos.
O modo com que o prelado recebeu a comissão fez com que seus membros julgassem perdidas todas as possibilidades de Santa Rita de Jacutinga ser elevada à categoria de cidade.
- Excelência, interrompe, aturdido, um membro da embaixada, viemos aqui dizer à Vossa Excelência Reverendíssima que o Monsenhor Marciano se encontra nesta capital e deseja falar-vos.
- Tenho grande satisfação em receber Monsenhor, tê-lo em minha casa, como hóspede. Mas, recomendo aos senhores não permitirem que ele me toque em emancipação municipal.
Chega o dia seguinte. Monsenhor Marciano se encontra na sala de espera do palácio Cristo-Rei.
Humildemente, ao avistar dom Cabral, ajoelha-se para beijar-lhe o anel. No entretanto, outra cena ocorre para deixar os circunstantes grandemente atordoados.
Dom Cabral não estende a mão a Monsenhor Marciano, como se esperava. Pega-lhe a mão estendida, esforça-se para o tirar daquela posição de joelhos. Levanta-o e diz:
- Não faça isto, Monsenhor!... Quem deve ajoelhar e beijar mãos santas, sou eu!...
O arcebispo de Belo Horizonte ajoelha e beija a mão de Monsenhor Marciano.
O acontecimento inesperado deixou pasmo todos os companheiros de Monsenhor.
Nessa mesma tarde, dom Cabral, pelo telefone, exigia, do Governador de Estado, a elevação de Santa Rita de Jacutinga à sede Municipal.
A 1° de Janeiro de 1944 instalava-se, festivamente, o Município de Santa Rita de Jacutinga.
( do livro de José Marinho de Araújo “ Vida e Obra de Monsenhor Marciano”).
“O povo de Santa Rita de Jacutinga ansiava por sua emancipação administrativa municipal. E, esse anseio passou a ser uma das preocupações do Vigário. Esboçara-se, ainda muito cedo, quando a localidade começou a mostrar- se com aspectos de cidade, e a vida de seu distrito mostrou-se pujante, crescente e cheia de possibilidades futuras. E bem próximas.
Corre o ano de 1922. Elementos de destaque na localidade, chefiados por Padrinho Vigário, pleiteiam juntos às autoridades competentes a elevação do distrito à vila. Naqueles dias, vila constituía sede de um município, com um termo judiciário. O nome local seria dado à sede de mais uma comuna mineira. Nesse ano, leva o Vigário à capital do Estado, uma comissão, a fim de pleitear a realização do maior ideal do povo a que vinha dirigindo espiritualmente, com sabedoria e santidade. Mas, a injustiça dos homens não o permitiu, assim exclamava o Monsenhor.
Em 1943, empreendeu nova campanha cívica. A de ligar todos os homens da terra em que vivia, para que ela recebesse o título de cidade. Faz fundar, no dia da Padroeira local, um comitê pró-emancipação administrativa.
Convida a todos, num chamamento justo e patriótico. Todos o atendem. A reunião era de grande finalidade.
Após a missa, às catorze horas ela se deu.
Abre-se aqui, um parêntese, para esclarecer que o Padrinho Vigário começava a celebrar a missa dominical, às vezes depois do meio dia, indo até as 13 e meia horas.Missa longa, e o padre sem alimentos!... Quantas vezes ficava a esperar alguém que vinha de longe, retardado pela chuva ou outra circunstância, para dar início ao ofício religioso. Era seu hábito.
De fato, logo após a missa, às catorze horas, as salas e demais dependências da casa paroquial, enchem-se de grande massa popular. Tamanho foi o número de pessoas presentes, que se tornou impossível a realização dos trabalhos, no interior da residência do Padrinho Vigário. Resolve-se, então, trazer para a via pública, a mesa onde se deviam assentar aqueles que iam dirigir os trabalhos. E um dia esplendido iluminado por um sol de maio, muito contribuiu para que isso se realizasse.
A banda de música local, aquela que tem o nome de “Corporação Musical Monsenhor Marciano” estava presente. Toda em seu uniforme branco. Abriu a sessão , com movimentada peça – um dobrado.
Monsenhor levanta-se e, cheio de alegria e fé nos destinos de sua freguesia, explica:
- O motivo dessa reunião, para a qual convoquei todos os meus paroquianos, é o de pedir ao Governador de Estado, a tão reclamada e justa emancipação política e administrativa municipal de Santa Rita de Jacutinga. Dirijo um apelo aos corações de todos aqueles que nasceram e vivem sob os olhares de Santa Rita, nossa excelsa Padroeira, a unirem-se, no momento que atravessamos. Devemos adotar um só ponto de vista, a fim de conseguirmos o que desejamos e que tanto almejamos- a nossa emancipação política. Depositaremos a melhor confiança no espírito de equidade e justiça do senhor Governador de Estado, para que sejam coroados de êxitos os desejos do povo desta terra.
As suas últimas palavras foram abafadas por estrepitosa salva de palmas. A banda musical executa o “Hino a Monsenhor Marciano”. Momentos de grande vibração e de melhor emoção. Todos , de pé, ouvem o hino. E dos lábios de muitos circunstantes saíam a letra de tão bela composição.
Faz-se uma eleição. A dos membros do Comitê. E redigido pelo próprio punho de Monsenhor, foi lido um pedido endereçado ao Governador de Estado, solicitando-lhe a criação do município de Santa Rita de Jacutinga. Esse pedido foi subscrito por todas as pessoas presentes.
Outras reuniões se realizaram, em casa de Padrinho Vigário, discutindo-se, nelas, assuntos de transcendental importância para o cometimento a que se entregara o Vigário.
Faz longa viagem a capital do Estado, chefiando uma delegação, para que forçasse ao governo a emancipação local. A causa se tornou santa. Porque a ela abraçou Padrinho Vigário, dedicando a ela toda a sua existência.
Há necessidade de uma pessoa de prestígio junto ao Governador. Outra não seria senão o senhor arcebispo.
A comitiva hospeda-se em um dos hotéis da cidade vergel. Monsenhor fica em descanso. Uma comissão, composta de quatro membros se dirige ao Palácio Cristo-Rei, residência de Dom Antônio Cabral.Situa-se na Praça da Liberdade, bem defronte de Palácio do Governo.
Aguarda-se a audiência do senhor Arcebispo. Este chega. Ao ver as pessoas presentes, diz:
- Se os senhores vieram, aqui, para tratar de emancipação do município, peço-vos não entenderem comigo sobre tal assunto.Não desejo envolver em política e nem tampouco me envolver com políticos.
O modo com que o prelado recebeu a comissão fez com que seus membros julgassem perdidas todas as possibilidades de Santa Rita de Jacutinga ser elevada à categoria de cidade.
- Excelência, interrompe, aturdido, um membro da embaixada, viemos aqui dizer à Vossa Excelência Reverendíssima que o Monsenhor Marciano se encontra nesta capital e deseja falar-vos.
- Tenho grande satisfação em receber Monsenhor, tê-lo em minha casa, como hóspede. Mas, recomendo aos senhores não permitirem que ele me toque em emancipação municipal.
Chega o dia seguinte. Monsenhor Marciano se encontra na sala de espera do palácio Cristo-Rei.
Humildemente, ao avistar dom Cabral, ajoelha-se para beijar-lhe o anel. No entretanto, outra cena ocorre para deixar os circunstantes grandemente atordoados.
Dom Cabral não estende a mão a Monsenhor Marciano, como se esperava. Pega-lhe a mão estendida, esforça-se para o tirar daquela posição de joelhos. Levanta-o e diz:
- Não faça isto, Monsenhor!... Quem deve ajoelhar e beijar mãos santas, sou eu!...
O arcebispo de Belo Horizonte ajoelha e beija a mão de Monsenhor Marciano.
O acontecimento inesperado deixou pasmo todos os companheiros de Monsenhor.
Nessa mesma tarde, dom Cabral, pelo telefone, exigia, do Governador de Estado, a elevação de Santa Rita de Jacutinga à sede Municipal.
A 1° de Janeiro de 1944 instalava-se, festivamente, o Município de Santa Rita de Jacutinga.
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
“Mansinho” é o nome dado aquele burro manso. Não era bem manso. Havia necessidade de um adjetivo mais forte, que condissesse bem as suas qualidades. Era um burro mansinho. Daí, o seu nome “Mansinho”.
Quantas vezes, fez ele a viagem da casa de dona Flor, na fazenda de Leandro Tomaz ao Seminário de Mariana no sagrado mister de trazer e levar o seminarista Marciano?
As férias aproximam-se. Marciano preliba os encantos da viagem. À chegada, o abraço e os beijos de sua mãe. O aconchego ameno e suave de suas irmãs. O dia chega. Seu tio, o bondoso tio José, está aí, puxando, pelo cabresto o manso “Mansinho”. E vão pela estrada, afora, em busca de Desterro do Melo.
Era aquele mesmo burro que voltava à Mariana, devolvendo Marciano à lides do Seminário.
“ Mansinho” conhecia bem os caminhos e encruzilhadas, do trajeto que levava dois dias para ir e dois dias para voltar. O nome exerce grande influência às pessoas, aos animais e às coisas. O burro tornou-se cada vez mais mansinho, levando ao lombo tão preciosa carga.
Aquela parada de descanso, em meio do caminho, onde pernoitava, já lhe tornara bem familiar. Até as ruas de Mariana...
Foi “Mansinho” que conduziu Marciano, já ordenado padre, desde sua a casa de Desterro do Melo até Santa Rita de Jacutinga. Fizera esse longo percurso, trazendo, não o seminarista, mas o padre vigário, colocando-o à frente de sua paróquia, na qualidade de seu diretor espiritual.
Quanto serviço prestou “Mansinho” ao padre! Constantemente era visto, pelas estradas da região, levando-o a inúmeras capelas, no meritório trabalho de distribuição dos sacramentos da Igreja.
- “Mansinho”, você está velho! Não aguenta mais serviço!
Padre Marciano acariciava-lhe a crina. Contemplava o animal. Em seu espírito, o passado de “Mansinho” tomava cores.
- Tanto serviço que você me prestou! Já está velho mesmo, acabado. Vai ter sua carta de alforria. Não trabalhará mais!
De fato, padre Marciano, manda soltar “Mansinho” com a recomendação de que não o fosse apanhado para quaisquer serviços, fossem eles quais fossem. Embora muito leves.
E “Mansinho” gozou da liberdade por muitos anos. Morreu de velho. Teve velhice descansada, sem trabalhos.
terça-feira, 25 de novembro de 2008
Piloto. O cavalo que recebeu uma Carta de Alforria
Piloto.
( Livro Vida e Obra de Monsenhor Marciano ,José Marinho de Araújo).
"Vamos, agora, a história de Piloto.
Segundo animal que obteve de padre Marciano, as graças de uma carta de alforria.
Era um cavalo manso. Trabalhador. Prestou bons serviços ao Vigário. Entre eles, o da construção do Santuário de Nossa Senhora d’Aparecida do Monte Calvário.
Todo santo dia, era ele visto subindo o caminho ziguezagueante do Monte Calvário. Conduzindo, água, areia, tijolos e outros materiais destinados à construção da Capela.
Ia à frente, pela manhã, dos operários. Daí o nome recebido “Piloto”. Nome dado com acerto.
Cônego Marciano, fazendo lembrar o ato de que foi contemplado “Mansinho”, dá a “Piloto” a carta da liberdade.[1]
Prestou bons serviços, e, por isso, não podia trabalhar mais.Tinha o direito ao descanso de uma aposentadoria.
Por muitos anos, era vista, de uma das paredes da sala de visita de cônego Marciano, a fotografia[2] de “Piloto”. Nela havia uma legenda. A história dos serviços prestados pelo cavalo ao Santuário de Nossa Senhora d’Aparecida do Monte Calvário. Terminava, com essas palavras, escritas de próprio punho, pelo Cônego Marciano:
- “As boas obras são as chaves d’oiro com que se abrem as portas do céu”.
Foi esse o lema de nosso virtuoso biografado".
[1] (Texto guardado juntamente com as relíquias de Monsenhor Marciano, na Igreja de São Sebastião, no Bairro da Santa Casa).
( Livro Vida e Obra de Monsenhor Marciano ,José Marinho de Araújo).
"Vamos, agora, a história de Piloto.
Segundo animal que obteve de padre Marciano, as graças de uma carta de alforria.
Era um cavalo manso. Trabalhador. Prestou bons serviços ao Vigário. Entre eles, o da construção do Santuário de Nossa Senhora d’Aparecida do Monte Calvário.
Todo santo dia, era ele visto subindo o caminho ziguezagueante do Monte Calvário. Conduzindo, água, areia, tijolos e outros materiais destinados à construção da Capela.
Ia à frente, pela manhã, dos operários. Daí o nome recebido “Piloto”. Nome dado com acerto.
Cônego Marciano, fazendo lembrar o ato de que foi contemplado “Mansinho”, dá a “Piloto” a carta da liberdade.[1]
Prestou bons serviços, e, por isso, não podia trabalhar mais.Tinha o direito ao descanso de uma aposentadoria.
Por muitos anos, era vista, de uma das paredes da sala de visita de cônego Marciano, a fotografia[2] de “Piloto”. Nela havia uma legenda. A história dos serviços prestados pelo cavalo ao Santuário de Nossa Senhora d’Aparecida do Monte Calvário. Terminava, com essas palavras, escritas de próprio punho, pelo Cônego Marciano:
- “As boas obras são as chaves d’oiro com que se abrem as portas do céu”.
Foi esse o lema de nosso virtuoso biografado".
[1] (Texto guardado juntamente com as relíquias de Monsenhor Marciano, na Igreja de São Sebastião, no Bairro da Santa Casa).
sábado, 22 de novembro de 2008
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
domingo, 9 de novembro de 2008
Planta da Igreja do Alto. Seu sonho. Acervo de José Marinho de Araújo
..."- Estou velho já perto da Eternidade. Morro e não fundo a minha Santa Casa. E Nossa Senhora d’Aparecida a quem dei a minha casa, não me protege!Entrega-se a uma grande tristeza. Mas não se queixa porque adora a Maria Santíssima mais do que sua própria vida. Dela se tornara um fervoroso devoto. E acrescentava sempre:
- Eu me conformo com os decretos insondáveis do Eterno.
Ia amortecendo-lhe o desejo de construir a sua Santa Casa, quando, um dia, Nosso Senhor lhe sugere uma idéia.Recebeu-a, num dia de recolhimento, oração e meditação.
- Hás de construir o Santuário de Nossa Senhora d’Aparecida, no cimo dessa colina elevadíssima, em cuja base está situada a sede de tua Freguesia. A tua Santa Rita querida! Assim, a Santa Casa poderá ser mantida com as esmolas depositadas pelos fiéis aos pés de Nossa Senhora d’ Aparecida do Monte Calvário.
A inspiração partida de Deus, enche-o de coragem. Todas as dificuldades que conturbavam a sua idéia desapareceram. Em seu lugar, solidifica-se a vontade de levar a efeito a grande cruzada, cruzada inspirada por Deus.
Resolve construir a capela no alto do morro.
Ia tudo muito bem. Reuniu material, contratou pedreiros, carpinteiros, serventes. O trabalho foi aparecendo. As paredes iam levantando-se. As torres foram esboçando-se.
Mas decorre uma circunstância. Ao terminar a estrutura do templo, os recursos financeiros periclitam. A obra tem que ser paralisada. O povo já se encontra cansado de contribuir.
- Que fazer?
Essa pergunta caiu por sobre as dificuldades surgidas à frente do vigário. Como se fosse ela um elemento provocador de luz sobre as trevas de um novo embaraço que se antepõe aos anseios do cônego Marciano.
Vê, de sua residência, a construção quase acabada, no alto da montanha. Chora porque não tem recursos financeiros para o término das obras.
Resolve viajar, espalhando os benefícios da Igreja, ampliando os limites de sua paróquia. Volta com algum dinheiro. Mas não o suficiente.
Adquirira, há tempos, um sítio, com pequenas economias. Era o que possuía de bens terrenos. Tornara-se proprietário é por que assim o obrigaram. Teve que comprar as terras a fim de agradar a um de seus paroquianos.
Mais uma vez, o seu desprendimento para os bens terrenos se revela: vende as terras. Termina, assim, com o produto da venda de suas próprias terras, a construção do Santuário.
Para que lhe servem os bens terrenos? Para nada! Não os desejava possuir. Há bem pouco doava a sua própria casa à Santa Casa. De coração, doou, também, suas terras para o término das obras do Santuário de Nossa Senhora d’Aparecida do Monte Calvário.
Decorrem três anos. Os sacrifícios, imensos. Os trabalhos, árduos. Mas a dedicação continua; não desaparece envolto na tormenta das dificuldades. Cônego Marciano se sente cansado. Esmorece...
Mas, lá no alto do antigo morro do Santo Cruzeiro, ergue a linda Capela, com suas torres apontando o infinito.
Guarda ainda os esplendores da festa de inauguração, que duraram um mês. Um mês inteiro... A folhinha marcava o dia 28 de julho. O ano era o de 1912.
O esmorecimento é alentado pelo fato de vê, já aparelhado, o prédio onde há de funcionar o hospital de sua Santa Casa.
Em 17 de novembro de 1914, quando completava os seus 55 anos de existência, fez inaugurar, com a maior pompa, a Santa Casa de Misericórdia de Nossa Senhora d’Aparecida do Monte Calvário. Localizava no prédio por ele doado. Pontilhava-se, no terreno de um alqueire, que lhe servia de quintal.
Cônego Marciano dedica-se, exclusivamente, à sua Santa Casa. Não se cansa em pedir uma esmola para o estabelecimento pio.
Quer ver o hospital crescer. Quer ver o seu patrimônio tomar vulto. E consegue, amparado pela sua força de vontade, que, de ano a ano, acentua-se, fazendo afastar-se de si toda a espécie de dificuldades e desânimos.
A sua residência e hospital representavam um só todo. Todo dinheiro que cai em suas mãos é destinado à manutenção de sua Fundação. As despesas grandes. Mas padre Marciano faz com que os débitos oriundos do funcionamento da Santa Casa sejam solvidos em dia.
Espalha-se, nos dias de hoje, pelo alqueire de terras que doou a Santa Casa, um enorme casario, colocado em algumas ruas estreitas, mas bem limpas e cuidadas. Uma praça espaçosa. Lindo bairro, num vértice suave.
O povo batizou o lugar de Bairro da Santa Casa."..... José Marinho de Araújo em seu livro Vida e Obra de Monsenhor Marciano, por FHOAA
sexta-feira, 7 de novembro de 2008
Cinquenta anos de pároco, assim conta-nos José Marinho de Araujo em seu livro Vida e Obra de Monsenhor Marciano.
-"... São decorridos cinqüenta anos! Lembro-me, muito bem, do dia em que cheguei a esse lugar. Um pequeno povoado, ainda em formação. Não me escapa o nome de qualquer um dos fazendeiros daqui. Eram todos meus amigos. A população era pequena. Toda dedicada à lavoura. Que bons tempos! Como os anos passam!
Assim exclamava o velhinho Monsenhor Marciano. Os anos quase setenta e oito! – pesavam sobre ele, mudando o seu físico. Aquele corpo forte, disposto ao trabalho, já se enfraquecera. Os seus cabelos brancos, respeitáveis, enfeitavam-lhe o rosto coberto de rugas.
- Já batizei avós, filhos e netos. Agora, estou batizando bisnetos!
Cinqüenta anos de serviços prestados à Igreja, em uma só localidade. Mas cinqüenta anos de verdadeiro sacerdócio. Dez lustros de dedicação ao povo a que Deus elegeu para seu rebanho. Vida dedicada a suas ovelhas, somente a elas. A população local tornou-se a família de “Padrinho Vigário”. Era o seu guia e o seu conselheiro. Sempre distribuindo a todos bens espirituais e materiais, a mão cheias.
Bem-aventurados os que praticam o bem pelo amor ao bem.
O tempo decorreu, passando pelo seu bojo, nada menos de meio século. Nesse espaço, a dedicação ímpar, de “Padrinho Vigário”, corporificou-se, derramando-se em exemplos edificantes.
Fortuna da terra, nenhuma. Do céu, graças em profusão. De bens terrenos não amealhou coisa alguma, pois levou existência distribuindo tudo o que caia em sua bolsa, produto de peregrinações pelas serras, à procura de longínquas capelas de sua vasta freguesia.
Praticando o bem, distribuindo-o, sem prescrições, não teve oportunidade para juntar, para si, algum dinheiro que lhe garantisse algum conforto, nos últimos dias de sua vida.
Conseguiu muito. Mas doou-o à Santa Casa de Misericórdia, ao Santuário de Nossa Senhora d’Aparecida do Monte Calvário e aos pobres e necessitados que o cercavam.
Havia pobreza, em sua paróquia. Mas não pedintes, porque “Padrinho Vigário” atendia a todos, numa obra vicentina, sem alardes, sem publicidade.
Por muito tempo, foi chamado pelo nome de “Pai dos Pobres”, até que “Padrinho Vigário” substituísse-lhe o tratamento consagrado por seus paroquianos.
Perguntamos, um dia, a Monsenhor:
- De bens terrenos, Padrinho Vigário só possui a casa em que mora?
- Não, meu filho, nem esta me pertence. Por ser esta a casa em que passei toda a minha existência de vigário daqui, resolvi doá-la ao hospital de minha Santa Casa, o meu estabelecimento pio, fundado por mim e razão de minha existência. Vivo agora para os pobrezinhos de minha Santa Casa.
Pobre nascera, pobre viveu. Mas enriqueceu-se em boas ações prestadas a seus semelhantes.
O seu nome se tornou uma bandeira para as causas locais.
Dignificou a Igreja, exaltou o Bispado. Elevou sua Paróquia. O seu nome não era seu. Como também não era seu, o seu bem. Eram de todos aqueles que o rodeavam. Os seus anseios eram de seu povo. Anseios que sempre redundaram em benefício da coletividade.
O mundo não vale, com seus faustos, suas pompas, suas glórias efêmeras, as preciosidades de certas vidas. Eleitas por Deus se transformam em tesouros que emolduram a Terra, embora pertencendo aos Céus.
Alma e coração de “Padrinho Vigário” se algamaram, desabrochando-se em preces.
E como foi formosa a primeira. Aquela que subiu a Deus, na manhã de 24 de julho de 1887, quando celebrava a sua primeira missa em Santa Rita de Jacutinga.
Estabeleceu ela um liame esplendoroso entre a Terra e o Céu.
E a prece alongou-se, alongou- se, por cinqüenta anos afora, sem solução de continuidade. Tomou forma homogênica, contínua, transformando-se em um todo. Um breviário de horas felizes. Não obstante, aparecerem, entre elas, momentos amargos, eram amenizados, em compensação, por um evangeliar de aleluias. impregnado de Te-Déuns de supremas graças.
Mas, surge, radiante, o dia 24 de julho de 1937, em que se marcou cinqüenta anos de pároco a Padrinho Vigário.
Servir a Deus é uma magnificência. Pra as gerações crepuscularam os sóis desses longos dezoito mil duzentos e cinqüenta dias. Mas a luz que se emana do apóstolo de Santa Rita de Jacutinga, projetou- se, ao longo de suas encruzilhadas, em suas quebradas, em suas serras, nos torcícolos de seus rios, nas grimpas de suas montanhas, nas escarpas e veredas palmilhadas por “Padrinho Vigário”.
Um impregnação de perfume lirial, emanada de sua vida santificada, conservando beatal aroma, aquele mesmo aroma das primeiras horas de sacerdote em Jesus Cristo, forma uma radiante esteira que se debruça pelo ondular da existência, desse trajeto do tempo, desde o dia em que padre Marciano descia de sua montaria, o burro “Mansinho”, no lugarejo que se tornou cidade.
Já se afirmaram que Monsenhor Marciano é Nome e é Vida, que não tem Ocaso, pois nele vive Nosso Senhor Jesus Cristo, Eterno Sol de Eterno Dia.
As virtudes do piedoso Vigário, por força dos fatos, determinaram a que seus paroquianos lhe prestassem grandes homenagens. Prova de gratidão ao grande missionário do Bem.
E a festa alcançou brilho. Tomou aspectos tocantes. A ocasião era oportuna: comemoração das bodas de ouro de Padrinho Vigário. Não foi uma festa, na expressão exata dos acontecimentos. Não foi o que se pode chamar manifestação. O que se realizou, foi além de uma consagração pública. Pelos esplendores, com que se revestiu, transformou-se ela em uma apoteose cívico religiosa.
Santa Rita de Jacutinga, aquele pequeno povoado, vislumbrado por padre Marciano, em 1887, se tornou cidade; mudou de aspecto. Vestiu-se para homenagear a seu santo diretor espiritual. A seu conselheiro e guia.
As ruas íngremes, aterradas e limpas. As casas, parecendo superpostas, apresentavam-se, todas elas, pintadas de novo. A brancura do casario tornava a localidade, ao longe, vista pelas grimpas das montanhas, que ornam a localidade, em um presépio. O pitoresco do conjunto parecia homenagear, também, a seu Vigário.
E porque não? A natureza compartilha, às vezes, das alegrias do homem.
As ruas, todas enfeitadas. Bambus, trazendo a sua verde folhagem, em arco. Bandeiras, em profusão. Conjunto que se fez transformar, em túneis, aquele emaranhado de folhagens verdes e cores variadas do papel de seda e tecidos cortados em bandeiras.
De ponto em ponto, um arco ornamental. Traziam, eles, os mais expressivos dísticos, com palavras dedicadas ao homenageado: “Beneditus Qui venit in nomine Domini”, “Ecce Sacerdos Magnos”, “Viva Monsenhor Marciano”, “Viva Padrinho Vigário”.
Dom Justino José de Sant’Ana, bispo de Juiz de Fora, a cuja diocese pertence a paróquia, veio tomar parte nas homenagens, trazendo consigo, grande número de vigários da diocese. Colegas de estudo do homenageado vieram, de longe, trazerem-lhe o abraço de felicitações.
Bandas de músicas, com seus componentes uniformizados chegam, das localidades vizinhas. Emprestaram às solenidades, realçante concurso. Quando o sol começou a beijar, com seus raios, os altos dos morros, já recolhiam as bandas, vinda do delicioso trabalho de despertar a população, com música alegre. Para a alma do Monsenhor Marciano, aquela música não trazia alegria em princípio, mas, depois de se desembaraçar da emoção, elevava suas preces ao Senhor, agradecendo-lhe todo o bem celestial que ora fazia derramar por-sobre o padre Vigário que serviu sua existência a uma única paróquia.
Chega um trem especial. Os lindos estandartes de associações religiosas de paróquias vizinhas emprestavam grande imponência à localidade. Vinham, em romaria, associar às homenagens.
Monsenhor apresentava-se com uma batina nova, oferecida por seus paroquianos. Se não o fosse, seria visto, como sempre, com aquela velhinha, encardida, cheia de resíduos de rapé. Porque não tinha meios para comprar uma nova. Cuidando dos outros, esquecia- se de sua própria pessoa.
E exclamava:
- Como são bons os meus amigos. Não mereço tanto!
A sua presença de espírito não se conturbou, diante das explosões de contentamento de seus paroquianos.
Passam as primeiras horas do dia. E Padrinho Vigário é visto sempre entregue à preocupação de contar suas anedotas e fatos singulares ocorridos em sua existência.
- Não me esqueço daquelas moças, que se achavam à janela, quando cheguei a este lugar. Elas, quando me avistaram, estava cansado; devido à longa viagem empreendida, envergado sobre o animal. Quiseram tirar conclusões a meu respeito. Viram-me com um aspecto de doente. Fraco. Exclamaram: - “Temos padre para pouco tempo!...” Eu ouvi bem a profecia dessas moças. E ela me impressionou, fortemente... Mas falhou... Que “pouco tempo” tão longo!... Cinquenta anos! Como se enganaram..." José Marinho de Araújo.
Assim exclamava o velhinho Monsenhor Marciano. Os anos quase setenta e oito! – pesavam sobre ele, mudando o seu físico. Aquele corpo forte, disposto ao trabalho, já se enfraquecera. Os seus cabelos brancos, respeitáveis, enfeitavam-lhe o rosto coberto de rugas.
- Já batizei avós, filhos e netos. Agora, estou batizando bisnetos!
Cinqüenta anos de serviços prestados à Igreja, em uma só localidade. Mas cinqüenta anos de verdadeiro sacerdócio. Dez lustros de dedicação ao povo a que Deus elegeu para seu rebanho. Vida dedicada a suas ovelhas, somente a elas. A população local tornou-se a família de “Padrinho Vigário”. Era o seu guia e o seu conselheiro. Sempre distribuindo a todos bens espirituais e materiais, a mão cheias.
Bem-aventurados os que praticam o bem pelo amor ao bem.
O tempo decorreu, passando pelo seu bojo, nada menos de meio século. Nesse espaço, a dedicação ímpar, de “Padrinho Vigário”, corporificou-se, derramando-se em exemplos edificantes.
Fortuna da terra, nenhuma. Do céu, graças em profusão. De bens terrenos não amealhou coisa alguma, pois levou existência distribuindo tudo o que caia em sua bolsa, produto de peregrinações pelas serras, à procura de longínquas capelas de sua vasta freguesia.
Praticando o bem, distribuindo-o, sem prescrições, não teve oportunidade para juntar, para si, algum dinheiro que lhe garantisse algum conforto, nos últimos dias de sua vida.
Conseguiu muito. Mas doou-o à Santa Casa de Misericórdia, ao Santuário de Nossa Senhora d’Aparecida do Monte Calvário e aos pobres e necessitados que o cercavam.
Havia pobreza, em sua paróquia. Mas não pedintes, porque “Padrinho Vigário” atendia a todos, numa obra vicentina, sem alardes, sem publicidade.
Por muito tempo, foi chamado pelo nome de “Pai dos Pobres”, até que “Padrinho Vigário” substituísse-lhe o tratamento consagrado por seus paroquianos.
Perguntamos, um dia, a Monsenhor:
- De bens terrenos, Padrinho Vigário só possui a casa em que mora?
- Não, meu filho, nem esta me pertence. Por ser esta a casa em que passei toda a minha existência de vigário daqui, resolvi doá-la ao hospital de minha Santa Casa, o meu estabelecimento pio, fundado por mim e razão de minha existência. Vivo agora para os pobrezinhos de minha Santa Casa.
Pobre nascera, pobre viveu. Mas enriqueceu-se em boas ações prestadas a seus semelhantes.
O seu nome se tornou uma bandeira para as causas locais.
Dignificou a Igreja, exaltou o Bispado. Elevou sua Paróquia. O seu nome não era seu. Como também não era seu, o seu bem. Eram de todos aqueles que o rodeavam. Os seus anseios eram de seu povo. Anseios que sempre redundaram em benefício da coletividade.
O mundo não vale, com seus faustos, suas pompas, suas glórias efêmeras, as preciosidades de certas vidas. Eleitas por Deus se transformam em tesouros que emolduram a Terra, embora pertencendo aos Céus.
Alma e coração de “Padrinho Vigário” se algamaram, desabrochando-se em preces.
E como foi formosa a primeira. Aquela que subiu a Deus, na manhã de 24 de julho de 1887, quando celebrava a sua primeira missa em Santa Rita de Jacutinga.
Estabeleceu ela um liame esplendoroso entre a Terra e o Céu.
E a prece alongou-se, alongou- se, por cinqüenta anos afora, sem solução de continuidade. Tomou forma homogênica, contínua, transformando-se em um todo. Um breviário de horas felizes. Não obstante, aparecerem, entre elas, momentos amargos, eram amenizados, em compensação, por um evangeliar de aleluias. impregnado de Te-Déuns de supremas graças.
Mas, surge, radiante, o dia 24 de julho de 1937, em que se marcou cinqüenta anos de pároco a Padrinho Vigário.
Servir a Deus é uma magnificência. Pra as gerações crepuscularam os sóis desses longos dezoito mil duzentos e cinqüenta dias. Mas a luz que se emana do apóstolo de Santa Rita de Jacutinga, projetou- se, ao longo de suas encruzilhadas, em suas quebradas, em suas serras, nos torcícolos de seus rios, nas grimpas de suas montanhas, nas escarpas e veredas palmilhadas por “Padrinho Vigário”.
Um impregnação de perfume lirial, emanada de sua vida santificada, conservando beatal aroma, aquele mesmo aroma das primeiras horas de sacerdote em Jesus Cristo, forma uma radiante esteira que se debruça pelo ondular da existência, desse trajeto do tempo, desde o dia em que padre Marciano descia de sua montaria, o burro “Mansinho”, no lugarejo que se tornou cidade.
Já se afirmaram que Monsenhor Marciano é Nome e é Vida, que não tem Ocaso, pois nele vive Nosso Senhor Jesus Cristo, Eterno Sol de Eterno Dia.
As virtudes do piedoso Vigário, por força dos fatos, determinaram a que seus paroquianos lhe prestassem grandes homenagens. Prova de gratidão ao grande missionário do Bem.
E a festa alcançou brilho. Tomou aspectos tocantes. A ocasião era oportuna: comemoração das bodas de ouro de Padrinho Vigário. Não foi uma festa, na expressão exata dos acontecimentos. Não foi o que se pode chamar manifestação. O que se realizou, foi além de uma consagração pública. Pelos esplendores, com que se revestiu, transformou-se ela em uma apoteose cívico religiosa.
Santa Rita de Jacutinga, aquele pequeno povoado, vislumbrado por padre Marciano, em 1887, se tornou cidade; mudou de aspecto. Vestiu-se para homenagear a seu santo diretor espiritual. A seu conselheiro e guia.
As ruas íngremes, aterradas e limpas. As casas, parecendo superpostas, apresentavam-se, todas elas, pintadas de novo. A brancura do casario tornava a localidade, ao longe, vista pelas grimpas das montanhas, que ornam a localidade, em um presépio. O pitoresco do conjunto parecia homenagear, também, a seu Vigário.
E porque não? A natureza compartilha, às vezes, das alegrias do homem.
As ruas, todas enfeitadas. Bambus, trazendo a sua verde folhagem, em arco. Bandeiras, em profusão. Conjunto que se fez transformar, em túneis, aquele emaranhado de folhagens verdes e cores variadas do papel de seda e tecidos cortados em bandeiras.
De ponto em ponto, um arco ornamental. Traziam, eles, os mais expressivos dísticos, com palavras dedicadas ao homenageado: “Beneditus Qui venit in nomine Domini”, “Ecce Sacerdos Magnos”, “Viva Monsenhor Marciano”, “Viva Padrinho Vigário”.
Dom Justino José de Sant’Ana, bispo de Juiz de Fora, a cuja diocese pertence a paróquia, veio tomar parte nas homenagens, trazendo consigo, grande número de vigários da diocese. Colegas de estudo do homenageado vieram, de longe, trazerem-lhe o abraço de felicitações.
Bandas de músicas, com seus componentes uniformizados chegam, das localidades vizinhas. Emprestaram às solenidades, realçante concurso. Quando o sol começou a beijar, com seus raios, os altos dos morros, já recolhiam as bandas, vinda do delicioso trabalho de despertar a população, com música alegre. Para a alma do Monsenhor Marciano, aquela música não trazia alegria em princípio, mas, depois de se desembaraçar da emoção, elevava suas preces ao Senhor, agradecendo-lhe todo o bem celestial que ora fazia derramar por-sobre o padre Vigário que serviu sua existência a uma única paróquia.
Chega um trem especial. Os lindos estandartes de associações religiosas de paróquias vizinhas emprestavam grande imponência à localidade. Vinham, em romaria, associar às homenagens.
Monsenhor apresentava-se com uma batina nova, oferecida por seus paroquianos. Se não o fosse, seria visto, como sempre, com aquela velhinha, encardida, cheia de resíduos de rapé. Porque não tinha meios para comprar uma nova. Cuidando dos outros, esquecia- se de sua própria pessoa.
E exclamava:
- Como são bons os meus amigos. Não mereço tanto!
A sua presença de espírito não se conturbou, diante das explosões de contentamento de seus paroquianos.
Passam as primeiras horas do dia. E Padrinho Vigário é visto sempre entregue à preocupação de contar suas anedotas e fatos singulares ocorridos em sua existência.
- Não me esqueço daquelas moças, que se achavam à janela, quando cheguei a este lugar. Elas, quando me avistaram, estava cansado; devido à longa viagem empreendida, envergado sobre o animal. Quiseram tirar conclusões a meu respeito. Viram-me com um aspecto de doente. Fraco. Exclamaram: - “Temos padre para pouco tempo!...” Eu ouvi bem a profecia dessas moças. E ela me impressionou, fortemente... Mas falhou... Que “pouco tempo” tão longo!... Cinquenta anos! Como se enganaram..." José Marinho de Araújo.
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
Consagração.
( Texto transcrito do livro de José Marinho de Araujo " Monsenhor Marciano sua vida, sua obra").
Achamo-nos numa pequena localidade situada ao Norte do Desterro do Melo, no município mineiro de Barbacena: Remédios. Assenta-se à margem do ribeirão Brejaúbas.
Tem aspecto sombrio, triste, quieto, de um lugarejo do interior. Uma pequena praça, emoldurada pelo casario pobre. Casa de negócio. População dedicada à agricultura. Muito sossego. Muita poesia.
Transcorre o dia 24 de setembro de 1859.
Celebra-se a missa. A capela cheia. Roceiros, com trajes domingueiros, superlotavam o pequeno recinto da ermida. Pequena para conter a todos.
Terminadas as cerimônias litúrgicas, o povo se dispersa. Pela praça, dominada por modesta capela se espalham os participantes da missa, já terminada, formando grupos, entretendo conversações. Outros procurando a condução de que dispunham: cavalos ou muares. Montam-nos em busca de suas residências.
No interior da ermida, apenas uma senhora. Está só. Entregue as suas orações. Encontra-se ajoelhada, aos pés de Nossa Senhora das Mercês. É a padroeira local. A imagem é venerada num único altar existente. Pequenino, singelo, mas pitoresco. Umas flores naturais e algumas fitas vermelhas e azuis, dele pendidas, completavam-lhe o todo harmonioso.
Genuflexa, a senhora continua imersa em suas preces. O que se passa, então, pode se qualificar como imensurável cena. É comovente. Cena que, transformada em quadro, poderia celebrizar um pintor. Foi uma cena sem testemunhas que pudessem medir a grandeza do ocorrido, a magnitude do gesto, a piedade da ação, o significado exato de uma consagração. Estava, ali, uma quase mãe, a consagrar seu filho a Nossa Senhora das Mercês.
Ajoelhada, contrita, dona Florentina estava esperando um filho. Não pela primeira vez. E, naquela posição de humildade, oferecia aquele à Santa, orago da povoação. Que beleza! Que ato! Que unção espiritual!
-Minha Nossa Senhora das Mercês, eu vos entrego meu filho, próximo ao nascer, na esperança de que, dele, tomais conta, encaminhando-o na vida! Numa vida de santo, do bem e da virtude!...
Duas lágrimas, produzidas pela emoção, rolam pelas suas faces. Caídas daqueles olhos cândidos de mãe extremosa. Daquela criatura que trazia um coração confiante, nos desígnios do céu e na majestática harmonia da Providência Divina.
Confortada, levanta-se da posição de joelhos em que permanecera. Contempla, por mais uma vez, a imagem de Nossa Senhora das Mercês. À espera de que, ela, com algum movimento de cabeça, de olhos, de lábios ou de mãos, aprovasse a oferenda.
Florentina, embalada por uma força vinda das regiões siderais, tem a impressão viva que a Senhora das Mercês, encarnada naquela imagem, ali presente, assentiu na oferta. Aceitou-a, fazendo com que o fruto daquele ventre se transformasse em uma das esperanças da família, seguindo o caminho do bem e da virtude.
- Florentina:
Uma voz grossa, masculina, veio tirar a mulher daquele êxtase, daquela afinidade entre o mundo material e os páramos das coisas divinas. Era o marido que a chamava:
- Florentina, vamos!...
Dona Florentina Cecília de Siqueira sai do colóquio em que se encontrava há muito tempo. Encaminha em direção de seu marido, que a esperava, atônito, bem no centro da capela.
Antônio Bernardes da Fonseca, uma figura respeitável, de agricultor e negociante, acolhe sua esposa. Segura-lhe os braços fortes e sadios.
Ainda estava ela com os olhos rasos d’ água. Ao marido, com voz embargada, externa o seu contentamento:
- Tonho! Nossa Senhora das Mercês vai tomar conta de nosso filho!
Antônio toma a direção do altar. Ajoelha-se. Pede também à Santa, a aprovação da vontade de sua mulher. Endossa o pedido, acompanhado de uma Ave Maria, rezada com a melhor devoção.
Cá fora, um sol claro e radiante iluminava as pastagens verdes. Ao longe, o azul dos morros distantes esmaltava o fundo da paisagem.
Tem aspecto sombrio, triste, quieto, de um lugarejo do interior. Uma pequena praça, emoldurada pelo casario pobre. Casa de negócio. População dedicada à agricultura. Muito sossego. Muita poesia.
Transcorre o dia 24 de setembro de 1859.
Celebra-se a missa. A capela cheia. Roceiros, com trajes domingueiros, superlotavam o pequeno recinto da ermida. Pequena para conter a todos.
Terminadas as cerimônias litúrgicas, o povo se dispersa. Pela praça, dominada por modesta capela se espalham os participantes da missa, já terminada, formando grupos, entretendo conversações. Outros procurando a condução de que dispunham: cavalos ou muares. Montam-nos em busca de suas residências.
No interior da ermida, apenas uma senhora. Está só. Entregue as suas orações. Encontra-se ajoelhada, aos pés de Nossa Senhora das Mercês. É a padroeira local. A imagem é venerada num único altar existente. Pequenino, singelo, mas pitoresco. Umas flores naturais e algumas fitas vermelhas e azuis, dele pendidas, completavam-lhe o todo harmonioso.
Genuflexa, a senhora continua imersa em suas preces. O que se passa, então, pode se qualificar como imensurável cena. É comovente. Cena que, transformada em quadro, poderia celebrizar um pintor. Foi uma cena sem testemunhas que pudessem medir a grandeza do ocorrido, a magnitude do gesto, a piedade da ação, o significado exato de uma consagração. Estava, ali, uma quase mãe, a consagrar seu filho a Nossa Senhora das Mercês.
Ajoelhada, contrita, dona Florentina estava esperando um filho. Não pela primeira vez. E, naquela posição de humildade, oferecia aquele à Santa, orago da povoação. Que beleza! Que ato! Que unção espiritual!
-Minha Nossa Senhora das Mercês, eu vos entrego meu filho, próximo ao nascer, na esperança de que, dele, tomais conta, encaminhando-o na vida! Numa vida de santo, do bem e da virtude!...
Duas lágrimas, produzidas pela emoção, rolam pelas suas faces. Caídas daqueles olhos cândidos de mãe extremosa. Daquela criatura que trazia um coração confiante, nos desígnios do céu e na majestática harmonia da Providência Divina.
Confortada, levanta-se da posição de joelhos em que permanecera. Contempla, por mais uma vez, a imagem de Nossa Senhora das Mercês. À espera de que, ela, com algum movimento de cabeça, de olhos, de lábios ou de mãos, aprovasse a oferenda.
Florentina, embalada por uma força vinda das regiões siderais, tem a impressão viva que a Senhora das Mercês, encarnada naquela imagem, ali presente, assentiu na oferta. Aceitou-a, fazendo com que o fruto daquele ventre se transformasse em uma das esperanças da família, seguindo o caminho do bem e da virtude.
- Florentina:
Uma voz grossa, masculina, veio tirar a mulher daquele êxtase, daquela afinidade entre o mundo material e os páramos das coisas divinas. Era o marido que a chamava:
- Florentina, vamos!...
Dona Florentina Cecília de Siqueira sai do colóquio em que se encontrava há muito tempo. Encaminha em direção de seu marido, que a esperava, atônito, bem no centro da capela.
Antônio Bernardes da Fonseca, uma figura respeitável, de agricultor e negociante, acolhe sua esposa. Segura-lhe os braços fortes e sadios.
Ainda estava ela com os olhos rasos d’ água. Ao marido, com voz embargada, externa o seu contentamento:
- Tonho! Nossa Senhora das Mercês vai tomar conta de nosso filho!
Antônio toma a direção do altar. Ajoelha-se. Pede também à Santa, a aprovação da vontade de sua mulher. Endossa o pedido, acompanhado de uma Ave Maria, rezada com a melhor devoção.
Cá fora, um sol claro e radiante iluminava as pastagens verdes. Ao longe, o azul dos morros distantes esmaltava o fundo da paisagem.
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
Recebendo Ordem Sagrada
( por José Marinho de Araújo em seu livro " Vida e Obra de Monsenhor Marciano).
..."Marciano muito aproveitara, em seus estudos, como seminarista. Fez curso excelente. Se não fora o aluno que alcançasse o primeiro lugar, nas notas, o obtinha em aproveitamento. Era o aluno que mais revelava qualidades e tendências para bem servir à causa de Deus.
Piedoso, bom, puro de coração, portador do melhor desprendimento, angariou a confiança de seus mestres e o respeito de seus condiscípulos. Todos adivinhavam, no moço de Desterro do Melo, um padre perfeito. Perfeitíssimo !
Madrugaram, no espírito de Marciano, todos os sentimentos que devem, possuir um padre, em sua vida prática, no pastoreio de rebanhos e numa existência de recolhimento.
Enquanto seus colegas se entregavam, pelo pátio do vetusto Seminário, em divertimentos estranhos à severidade do recesso, Marciano era visto, de joelhos, junto aos altares da capela, pedindo, aos Santos, as melhores graças que os céus possuíssem. Consagrara especial devoção à Maria Santíssima. Tornava-se, dia a dia, um profundo asceta, dedicando-se inteiramente aos exercícios espirituais.
O tempo passa. Marciano ambienta- se, entre as tradicionais paredes do tradicional Seminário de Mariana, que tantos florões e doutores da Igreja premiou o Brasil.
O espírito do seminarista da fazenda de Leandro Tomaz ia fortificando- se, cada vez mais, pela fé. Os conhecimentos que vinha obtendo com os estudos necessários à sua formação sacerdotal, transformaram completamente o espírito do protegido de dom Antônio Benevides. Plasmaram-se, em Marciano, os anseios de um ermitão. Criara-se em si, em seu espírito, uma ermida simbólica, 1ocalizada bem num oásis de seus pensamentos.Não no ermo. Mas naquele halo de luz resplandecente. Ermitão de um templo radiante, de cores raras e estuantes à vista humana, espaldado pela argamassa divina. Templo com que ele sonhara e quase transformado em realidade. Tinha em seu espírito, uma forma definida, substancial, concreta, elevada...
Queria viver para Deus. Ser agradável a Nossa Senhora. As coisas terrenas, as competições humanas, iam tornando- lhe estranhas. Era de Deus e não do Mundo!
Como aluno bom, era apontado pelos seus professores chamado o mais exemplar, entre todos. O seu traço psicológico e o seu feitio moral, muito se diferenciavam de seus colegas seminaristas, que se entregavam às coisas terrenas, nas folgas que o educandário proporcionava.
Transcorre o dia 2 de maio de 1886.
Devia Marciano receber a ordem sagrada, considerada Ordem Maior. Das ordens a receber, era a quinta. Já tinha recebido quatro, mas consideradas ordens menores.
O dia amanhece festivo, no Seminário.
Marciano é o sacristão da Capela.
Cedo, muito cedo, ainda, quando o sol procurava lançar seus primeiros raios sobre as elevações que circundam Mariana, já encontramos Marciano, o piedoso sacristão, no preparo do altar, numa arrumação cuidadosa das alfaias e de tudo quanto concerne ao embelezamento da Capela.
Que manhã feliz!
Aproxima-se o momento da cerimônia.
Uma angústia, mista de medo e fraqueza, invade o espírito de Marciano.
Na sala principal, os padres preceptores distribuíam os paramentos. Os seminaristas iam vestindo-se.
- Sobrou um. De quem?
O padre-mestre conta os presentes:
- Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete... Falta um. Quem é que está faltando?
- É Marciano. Respondeu um dos seminaristas.
O padre encarregado da distribuição dos paramentos procura-o, por todos os cantos do edifício. Na Capela, não está, nem no dormitório, nem no refeitório... Não pode desaparecer um seminarista, assim!
- Será possível!... Marciano!... Marciano!...
Estava ele, só, chorando num canto de uma sala de aula.
Entregara-se a um medo inexplicável.
O preceptor o reanima:
- Coragem, Marciano!...Nossa Senhora d’Aparecida há de te dar coragem. Vamos: Pedes a sua proteção.
Com as mãos trêmulas, pega o paramento que o padre professor lhe estendia. Notou que era a veste mais antiga existente no Seminário.
Gasta, rasgada e um pouco suja. Mas não importou com esse fato. Vestiu-a.
Na sala da Capela, olhos fechados, cai, com os seus companheiros, estendendo-se ao chão, a fim de receber a ordem sagrada.
Passados minutos, procura melhor a sua posição. Olha para cima.
Sente-se imensamente confortado, ao notar que estava aos pés de Nossa Senhora das Dores.
A coragem tomou conta de seu ânimo.
Recebeu a ordem sagrada, cheio da melhor confiança. Grandemente encorajado".
..."Marciano muito aproveitara, em seus estudos, como seminarista. Fez curso excelente. Se não fora o aluno que alcançasse o primeiro lugar, nas notas, o obtinha em aproveitamento. Era o aluno que mais revelava qualidades e tendências para bem servir à causa de Deus.
Piedoso, bom, puro de coração, portador do melhor desprendimento, angariou a confiança de seus mestres e o respeito de seus condiscípulos. Todos adivinhavam, no moço de Desterro do Melo, um padre perfeito. Perfeitíssimo !
Madrugaram, no espírito de Marciano, todos os sentimentos que devem, possuir um padre, em sua vida prática, no pastoreio de rebanhos e numa existência de recolhimento.
Enquanto seus colegas se entregavam, pelo pátio do vetusto Seminário, em divertimentos estranhos à severidade do recesso, Marciano era visto, de joelhos, junto aos altares da capela, pedindo, aos Santos, as melhores graças que os céus possuíssem. Consagrara especial devoção à Maria Santíssima. Tornava-se, dia a dia, um profundo asceta, dedicando-se inteiramente aos exercícios espirituais.
O tempo passa. Marciano ambienta- se, entre as tradicionais paredes do tradicional Seminário de Mariana, que tantos florões e doutores da Igreja premiou o Brasil.
O espírito do seminarista da fazenda de Leandro Tomaz ia fortificando- se, cada vez mais, pela fé. Os conhecimentos que vinha obtendo com os estudos necessários à sua formação sacerdotal, transformaram completamente o espírito do protegido de dom Antônio Benevides. Plasmaram-se, em Marciano, os anseios de um ermitão. Criara-se em si, em seu espírito, uma ermida simbólica, 1ocalizada bem num oásis de seus pensamentos.Não no ermo. Mas naquele halo de luz resplandecente. Ermitão de um templo radiante, de cores raras e estuantes à vista humana, espaldado pela argamassa divina. Templo com que ele sonhara e quase transformado em realidade. Tinha em seu espírito, uma forma definida, substancial, concreta, elevada...
Queria viver para Deus. Ser agradável a Nossa Senhora. As coisas terrenas, as competições humanas, iam tornando- lhe estranhas. Era de Deus e não do Mundo!
Como aluno bom, era apontado pelos seus professores chamado o mais exemplar, entre todos. O seu traço psicológico e o seu feitio moral, muito se diferenciavam de seus colegas seminaristas, que se entregavam às coisas terrenas, nas folgas que o educandário proporcionava.
Transcorre o dia 2 de maio de 1886.
Devia Marciano receber a ordem sagrada, considerada Ordem Maior. Das ordens a receber, era a quinta. Já tinha recebido quatro, mas consideradas ordens menores.
O dia amanhece festivo, no Seminário.
Marciano é o sacristão da Capela.
Cedo, muito cedo, ainda, quando o sol procurava lançar seus primeiros raios sobre as elevações que circundam Mariana, já encontramos Marciano, o piedoso sacristão, no preparo do altar, numa arrumação cuidadosa das alfaias e de tudo quanto concerne ao embelezamento da Capela.
Que manhã feliz!
Aproxima-se o momento da cerimônia.
Uma angústia, mista de medo e fraqueza, invade o espírito de Marciano.
Na sala principal, os padres preceptores distribuíam os paramentos. Os seminaristas iam vestindo-se.
- Sobrou um. De quem?
O padre-mestre conta os presentes:
- Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete... Falta um. Quem é que está faltando?
- É Marciano. Respondeu um dos seminaristas.
O padre encarregado da distribuição dos paramentos procura-o, por todos os cantos do edifício. Na Capela, não está, nem no dormitório, nem no refeitório... Não pode desaparecer um seminarista, assim!
- Será possível!... Marciano!... Marciano!...
Estava ele, só, chorando num canto de uma sala de aula.
Entregara-se a um medo inexplicável.
O preceptor o reanima:
- Coragem, Marciano!...Nossa Senhora d’Aparecida há de te dar coragem. Vamos: Pedes a sua proteção.
Com as mãos trêmulas, pega o paramento que o padre professor lhe estendia. Notou que era a veste mais antiga existente no Seminário.
Gasta, rasgada e um pouco suja. Mas não importou com esse fato. Vestiu-a.
Na sala da Capela, olhos fechados, cai, com os seus companheiros, estendendo-se ao chão, a fim de receber a ordem sagrada.
Passados minutos, procura melhor a sua posição. Olha para cima.
Sente-se imensamente confortado, ao notar que estava aos pés de Nossa Senhora das Dores.
A coragem tomou conta de seu ânimo.
Recebeu a ordem sagrada, cheio da melhor confiança. Grandemente encorajado".
Ilustrações de Fátima Helena Oliveira de Araújo e Araújo.
terça-feira, 28 de outubro de 2008
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
Foto de Monsenhor Marciano, editada com muito amor,por Fatima Helena Oliveira de Araújo e Araújo
“....Recebe, com agradável surpresa, de seu Bispo, uma provisão.
Estava designado para Vigário de Santa Rita de Jacutinga.
- Onde ficará essa paróquia?
Sabia, apenas que pertencia ao Bispado de Mariana.E mais nada. Fica num longínqüo recanto da diocese. Para os lados de Juiz de Fora.
Ia Marciano residir numa terra estranha. Povo estranho. Zona muito diferente daquelas em que nascera, vivera e se formara. Tão diferente de Desterro e de Mariana.
Acompanha o documento, uma carta de dom Antônio. Nela, o Bispo declara que este era o seu desejo externado, há tempos, meses antes da ordenação de Marciano. O compromisso assumido teria que ser cumprido. Não podia contrariar o seu Bispo.
- Que fazer, o destino movimentado por um influxo divino, assim o determinava.
Um fato interessante:
A freguesia de Santa Rita de Jacutinga foi criada em julho de 1859.
E, em 17 de novembro do mesmo ano, nasce, em Desterro do Melo, uma criança, que depois de ordenado padre, viria dirigir, espiritualmente a paróquia.
Ocorrência digna de registro.
Estabeleceu-se afinidade entre padre Marciano e a criação de uma paróquia.
A viagem foi longa. Não penosa. Novos panoramas. Novas paisagens encharcaram de fulgor os olhos de Marciano.
Fê-la Marciano, a cavalo. Desde o recanto de Barbacena, onde nascera até o longínqüo recanto do município do Rio Preto, ao qual pertencia Santa Rita de Jacutinga.
Ao passar pelo povoado de São Pedro do Taguá, assentado numa das barrancas do rio Preto, depois de ver a cidade de Rio Preto, já nas proximidades de sua paróquia, padre Marciano para, mais uma vez, a fim de retribuir cumprimentos a um dos residentes do lugar.
É assim interpelado:
- O padre é liberal ou conservador?
Tratava-se de duas correntes partidárias da época, então entregues a um prélio aceso, apaixonado, por todo o Brasil. Os conservadores obedeciam ao Trono, e os liberais faziam-no intensa oposição.
Padre Marciano não teve dificuldade em esclarecer, em mostrar o partido a que pertencia:
- Sou vigário de Santa Rita .
Respondeu, com presteza e acerto, pois a única política, a que sempre desejou abraçar, foi a de servir à Santa Rita, padroeira do lugar a quem a Providência determinou ser ele o pastor de almas.
O povo de Santa Rita de Jacutinga, a localidade nascente entre os rios Bananal e Jacutinga, empurrada para a junção desses, pelo sistema montanhoso ramificante da Mantiqueira, ali estava.
Preparada para receber o novo Vigário, ali se encontrava.
Marciano chega, a cavalo, acompanhado por um tio e um primo.
Entra por uma das ruas da localidade. As janelas enchem- se de rostos femininos, alegres, numa vontade de dar as boas vindas ao novo padre. As portas enchem- se de pessoas ansiosas para o verem
Marciano cumprimenta a todos, com amabilidade e sorrisos que lhe afloravam pelos lábios.
Uma senhora lhe dirige uma pergunta, que o faz parar, em meio da rua, segurando a rédea do animal:
- O senhor é o novo padre daqui?
- Sim, minha senhora, para servir a Deus e à Santa Rita, sou o vosso Vigário.
Fustiga o animal, com uma chicotada. Continua o seu caminho. Ouvidos atentos pega esse comentário daquela senhora que o detera:
- Coitado! É vigário para pouco tempo!...
No largo da Matriz é recebido festivamente. O professor local produz um substancioso discurso de recepção. Muitas palmas, abraços, cumprimentos.
Uma banda de música, regida pelo mesmo professor, executa várias peças de seu repertório.
Os manifestantes afluíram para a residência do professor, no intuito de prestarem homenagem ao novo Vigário.
Padre Marciano foi hóspede, por quatro dias, do professor. Depois dessa estada, aluga uma casa de propriedade de um coronel da Guarda Nacional, negociante na população.

O senhorio, ao entregar- lhe a chave, recomenda-lhe com insistência:
- Peço ao padre não tocar nas couves da horta. É somente a casa que eu alugo.
Mas, dias depois, arrependendo-se da proibição imposta ao vigário, procura-o, querendo ajeitá-lo, abrindo-se em oferecimentos:
- Não, seu vigário. Pode comer as couves, à vontade, porque vejo, no senhor um bom freguês para a minha venda.
A posse, como vigário da Paróquia, se deu, no dia seguinte à sua chegada.
Celebrada a primeira missa em Santa Rita de Jacutinga.
A folhinha marcava o dia 24 de julho de 1887.
Na prática (homilia), apresenta-se aos paroquianos. Manifesta-se contente. Contentíssimo. A alegria lhe é imensa. Não lhe faltaram as lágrimas, produzidas pela emoção. Lágrimas que sempre foram, para o padre Marciano, o corolário de suas emoções, grandes ou pequenas, dolorosas ou de contentamento. Em seus sermões, práticas e discursos, foram elas, como em outras ocasiões, epílogo de homenagem recebida.
Do púlpito, promete a seus paroquianos:
-Hei de trabalhar para o bom nome desta Paróquia! O bem estar de meus paroquianos, terá, em mim, um grande defensor! Hei de amparar todas iniciativas que se me antepuserem, para o vosso bem. Para o bem do povo de Santa Rita, a quem, doravante, passarei a chamar de meu Povo!...”
Trecho do Livro Monsenhor Marciano, sua vida, sua obra. José Marinho de Araújo.
Estava designado para Vigário de Santa Rita de Jacutinga.
- Onde ficará essa paróquia?
Sabia, apenas que pertencia ao Bispado de Mariana.E mais nada. Fica num longínqüo recanto da diocese. Para os lados de Juiz de Fora.
Ia Marciano residir numa terra estranha. Povo estranho. Zona muito diferente daquelas em que nascera, vivera e se formara. Tão diferente de Desterro e de Mariana.
Acompanha o documento, uma carta de dom Antônio. Nela, o Bispo declara que este era o seu desejo externado, há tempos, meses antes da ordenação de Marciano. O compromisso assumido teria que ser cumprido. Não podia contrariar o seu Bispo.
- Que fazer, o destino movimentado por um influxo divino, assim o determinava.
Um fato interessante:
A freguesia de Santa Rita de Jacutinga foi criada em julho de 1859.
E, em 17 de novembro do mesmo ano, nasce, em Desterro do Melo, uma criança, que depois de ordenado padre, viria dirigir, espiritualmente a paróquia.
Ocorrência digna de registro.
Estabeleceu-se afinidade entre padre Marciano e a criação de uma paróquia.
A viagem foi longa. Não penosa. Novos panoramas. Novas paisagens encharcaram de fulgor os olhos de Marciano.
Fê-la Marciano, a cavalo. Desde o recanto de Barbacena, onde nascera até o longínqüo recanto do município do Rio Preto, ao qual pertencia Santa Rita de Jacutinga.
Ao passar pelo povoado de São Pedro do Taguá, assentado numa das barrancas do rio Preto, depois de ver a cidade de Rio Preto, já nas proximidades de sua paróquia, padre Marciano para, mais uma vez, a fim de retribuir cumprimentos a um dos residentes do lugar.
É assim interpelado:
- O padre é liberal ou conservador?
Tratava-se de duas correntes partidárias da época, então entregues a um prélio aceso, apaixonado, por todo o Brasil. Os conservadores obedeciam ao Trono, e os liberais faziam-no intensa oposição.
Padre Marciano não teve dificuldade em esclarecer, em mostrar o partido a que pertencia:
- Sou vigário de Santa Rita .
Respondeu, com presteza e acerto, pois a única política, a que sempre desejou abraçar, foi a de servir à Santa Rita, padroeira do lugar a quem a Providência determinou ser ele o pastor de almas.
O povo de Santa Rita de Jacutinga, a localidade nascente entre os rios Bananal e Jacutinga, empurrada para a junção desses, pelo sistema montanhoso ramificante da Mantiqueira, ali estava.
Preparada para receber o novo Vigário, ali se encontrava.
Marciano chega, a cavalo, acompanhado por um tio e um primo.
Entra por uma das ruas da localidade. As janelas enchem- se de rostos femininos, alegres, numa vontade de dar as boas vindas ao novo padre. As portas enchem- se de pessoas ansiosas para o verem
Marciano cumprimenta a todos, com amabilidade e sorrisos que lhe afloravam pelos lábios.
Uma senhora lhe dirige uma pergunta, que o faz parar, em meio da rua, segurando a rédea do animal:
- O senhor é o novo padre daqui?
- Sim, minha senhora, para servir a Deus e à Santa Rita, sou o vosso Vigário.
Fustiga o animal, com uma chicotada. Continua o seu caminho. Ouvidos atentos pega esse comentário daquela senhora que o detera:
- Coitado! É vigário para pouco tempo!...
No largo da Matriz é recebido festivamente. O professor local produz um substancioso discurso de recepção. Muitas palmas, abraços, cumprimentos.
Uma banda de música, regida pelo mesmo professor, executa várias peças de seu repertório.
Os manifestantes afluíram para a residência do professor, no intuito de prestarem homenagem ao novo Vigário.
Padre Marciano foi hóspede, por quatro dias, do professor. Depois dessa estada, aluga uma casa de propriedade de um coronel da Guarda Nacional, negociante na população.

O senhorio, ao entregar- lhe a chave, recomenda-lhe com insistência:
- Peço ao padre não tocar nas couves da horta. É somente a casa que eu alugo.
Mas, dias depois, arrependendo-se da proibição imposta ao vigário, procura-o, querendo ajeitá-lo, abrindo-se em oferecimentos:
- Não, seu vigário. Pode comer as couves, à vontade, porque vejo, no senhor um bom freguês para a minha venda.
A posse, como vigário da Paróquia, se deu, no dia seguinte à sua chegada.
Celebrada a primeira missa em Santa Rita de Jacutinga.
A folhinha marcava o dia 24 de julho de 1887.
Na prática (homilia), apresenta-se aos paroquianos. Manifesta-se contente. Contentíssimo. A alegria lhe é imensa. Não lhe faltaram as lágrimas, produzidas pela emoção. Lágrimas que sempre foram, para o padre Marciano, o corolário de suas emoções, grandes ou pequenas, dolorosas ou de contentamento. Em seus sermões, práticas e discursos, foram elas, como em outras ocasiões, epílogo de homenagem recebida.
Do púlpito, promete a seus paroquianos:
-Hei de trabalhar para o bom nome desta Paróquia! O bem estar de meus paroquianos, terá, em mim, um grande defensor! Hei de amparar todas iniciativas que se me antepuserem, para o vosso bem. Para o bem do povo de Santa Rita, a quem, doravante, passarei a chamar de meu Povo!...”
Trecho do Livro Monsenhor Marciano, sua vida, sua obra. José Marinho de Araújo.
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