segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Monsenhor Marciano

O Emancipador.
( do livro de José Marinho de Araújo “ Vida e Obra de Monsenhor Marciano”).

“O povo de Santa Rita de Jacutinga ansiava por sua emancipação administrativa municipal. E, esse anseio passou a ser uma das preocupações do Vigário. Esboçara-se, ainda muito cedo, quando a localidade começou a mostrar- se com aspectos de cidade, e a vida de seu distrito mostrou-se pujante, crescente e cheia de possibilidades futuras. E bem próximas.
Corre o ano de 1922. Elementos de destaque na localidade, chefiados por Padrinho Vigário, pleiteiam juntos às autoridades competentes a elevação do distrito à vila. Naqueles dias, vila constituía sede de um município, com um termo judiciário. O nome local seria dado à sede de mais uma comuna mineira. Nesse ano, leva o Vigário à capital do Estado, uma comissão, a fim de pleitear a realização do maior ideal do povo a que vinha dirigindo espiritualmente, com sabedoria e santidade. Mas, a injustiça dos homens não o permitiu, assim exclamava o Monsenhor.
Em 1943, empreendeu nova campanha cívica. A de ligar todos os homens da terra em que vivia, para que ela recebesse o título de cidade. Faz fundar, no dia da Padroeira local, um comitê pró-emancipação administrativa.
Convida a todos, num chamamento justo e patriótico. Todos o atendem. A reunião era de grande finalidade.
Após a missa, às catorze horas ela se deu.
Abre-se aqui, um parêntese, para esclarecer que o Padrinho Vigário começava a celebrar a missa dominical, às vezes depois do meio dia, indo até as 13 e meia horas.Missa longa, e o padre sem alimentos!... Quantas vezes ficava a esperar alguém que vinha de longe, retardado pela chuva ou outra circunstância, para dar início ao ofício religioso. Era seu hábito.
De fato, logo após a missa, às catorze horas, as salas e demais dependências da casa paroquial, enchem-se de grande massa popular. Tamanho foi o número de pessoas presentes, que se tornou impossível a realização dos trabalhos, no interior da residência do Padrinho Vigário. Resolve-se, então, trazer para a via pública, a mesa onde se deviam assentar aqueles que iam dirigir os trabalhos. E um dia esplendido iluminado por um sol de maio, muito contribuiu para que isso se realizasse.
A banda de música local, aquela que tem o nome de “Corporação Musical Monsenhor Marciano” estava presente. Toda em seu uniforme branco. Abriu a sessão , com movimentada peça – um dobrado.
Monsenhor levanta-se e, cheio de alegria e fé nos destinos de sua freguesia, explica:
- O motivo dessa reunião, para a qual convoquei todos os meus paroquianos, é o de pedir ao Governador de Estado, a tão reclamada e justa emancipação política e administrativa municipal de Santa Rita de Jacutinga. Dirijo um apelo aos corações de todos aqueles que nasceram e vivem sob os olhares de Santa Rita, nossa excelsa Padroeira, a unirem-se, no momento que atravessamos. Devemos adotar um só ponto de vista, a fim de conseguirmos o que desejamos e que tanto almejamos- a nossa emancipação política. Depositaremos a melhor confiança no espírito de equidade e justiça do senhor Governador de Estado, para que sejam coroados de êxitos os desejos do povo desta terra.
As suas últimas palavras foram abafadas por estrepitosa salva de palmas. A banda musical executa o “Hino a Monsenhor Marciano”. Momentos de grande vibração e de melhor emoção. Todos , de pé, ouvem o hino. E dos lábios de muitos circunstantes saíam a letra de tão bela composição.
Faz-se uma eleição. A dos membros do Comitê. E redigido pelo próprio punho de Monsenhor, foi lido um pedido endereçado ao Governador de Estado, solicitando-lhe a criação do município de Santa Rita de Jacutinga. Esse pedido foi subscrito por todas as pessoas presentes.
Outras reuniões se realizaram, em casa de Padrinho Vigário, discutindo-se, nelas, assuntos de transcendental importância para o cometimento a que se entregara o Vigário.
Faz longa viagem a capital do Estado, chefiando uma delegação, para que forçasse ao governo a emancipação local. A causa se tornou santa. Porque a ela abraçou Padrinho Vigário, dedicando a ela toda a sua existência.
Há necessidade de uma pessoa de prestígio junto ao Governador. Outra não seria senão o senhor arcebispo.
A comitiva hospeda-se em um dos hotéis da cidade vergel. Monsenhor fica em descanso. Uma comissão, composta de quatro membros se dirige ao Palácio Cristo-Rei, residência de Dom Antônio Cabral.Situa-se na Praça da Liberdade, bem defronte de Palácio do Governo.
Aguarda-se a audiência do senhor Arcebispo. Este chega. Ao ver as pessoas presentes, diz:
- Se os senhores vieram, aqui, para tratar de emancipação do município, peço-vos não entenderem comigo sobre tal assunto.Não desejo envolver em política e nem tampouco me envolver com políticos.
O modo com que o prelado recebeu a comissão fez com que seus membros julgassem perdidas todas as possibilidades de Santa Rita de Jacutinga ser elevada à categoria de cidade.
- Excelência, interrompe, aturdido, um membro da embaixada, viemos aqui dizer à Vossa Excelência Reverendíssima que o Monsenhor Marciano se encontra nesta capital e deseja falar-vos.
- Tenho grande satisfação em receber Monsenhor, tê-lo em minha casa, como hóspede. Mas, recomendo aos senhores não permitirem que ele me toque em emancipação municipal.
Chega o dia seguinte. Monsenhor Marciano se encontra na sala de espera do palácio Cristo-Rei.
Humildemente, ao avistar dom Cabral, ajoelha-se para beijar-lhe o anel. No entretanto, outra cena ocorre para deixar os circunstantes grandemente atordoados.

Dom Cabral não estende a mão a Monsenhor Marciano, como se esperava. Pega-lhe a mão estendida, esforça-se para o tirar daquela posição de joelhos. Levanta-o e diz:
- Não faça isto, Monsenhor!... Quem deve ajoelhar e beijar mãos santas, sou eu!...
O arcebispo de Belo Horizonte ajoelha e beija a mão de Monsenhor Marciano.
O acontecimento inesperado deixou pasmo todos os companheiros de Monsenhor.
Nessa mesma tarde, dom Cabral, pelo telefone, exigia, do Governador de Estado, a elevação de Santa Rita de Jacutinga à sede Municipal.
A 1° de Janeiro de 1944 instalava-se, festivamente, o Município de Santa Rita de Jacutinga.

o Emancipador.

http://br.youtube.com/watch?v=_K_kII3jTOw