sábado, 16 de maio de 2009

Irmandade de Nossa Senhora Aparecida do Monte Calvário Texto do livro de José Marinho de Araújo, compilado em sua íntegra.por FHOAA

" O sistema orográfico de Santa Rita de Jacutinga é bem interessante. Essa localidade situada entre os morros contrafortes da serra do Lagarto, ramificantes do sistema Mantiqueira. Dois rios se juntam na parte urbana local. São o Bananal e o Jacutinga. Depois de pequeno rolar, descem e formam a Cachoeira das Areias, onde compõem, em seu começo, interessante garganta, os morros do Túnel e Espigão do Rosário. Uma seqüência de montanhas cerca a sede da paróquia: Cachoeira ou Espigão do Rosário, Ronco, Mineiro, Arrependido, Batalhão, Pico do Papagaio, Boa Vista e Monte Calvário. O círculo de montanhas forma a bacia. No fundo se encontram os talvegues dos rios Bananal e Jacutinga. No ângulo formado pela junção dos rios, encontra- se Santa Rita de Jacutinga.
Pelas suas linhas majestosas, destaca-se entre todas essas montanhas, o Monte Calvário.Em sua base se assenta a sede da freguesia.
Desde muitos anos, padre Marciano, sonha fazer, desse morro, bela e natural peanha de um Santuário.
Sob a sua inspiração se constrói um caminho, em zigue-zague, partindo de sua fralda, indo terminar em sua grimpa.
Aspecto admirável tem o morro agora!

Alguns missionários, em pregação, passam por Santa Rita de Jacutinga. A permanência traz benéficos efeitos ao trato espiritual da gente. As pregações e práticas religiosas são luzes que se espalham por sobre a alma e coração do povo.
Padre Marciano tem uma idéia:
- Vamos fincar, no alto daquele morro, um cruzeiro. Um cruzeiro, cujo tamanho o torne visível aos olhos de todos que mourejam cá em baixo, e, dele, possam receber, diurtunamente, as bênçãos celestiais.
A idéia magnífica recebeu os aplausos dos missionários.
O povo de Santa Rita de Jacutinga ficaria melhor protegido, à sombra de um cruzeiro, colocado em um lugar tão alto,tão perto de céu, tão perto de Deus.
Magnífico pedestal. Todo feito em pedra e granito!
Grande presente recebido pelo povo, em conseqüência de uma inspiração de padre Marciano, vinda das alturas
Assim o pensaram, assim o fizeram.
Linda manhã do mês de Maio. Dia 22. Dia da Padroeira.
Bela procissão se forma, cá em baixo. Daí a pouco, alcança o caminho ziguezagueante. E vai subindo, subindo, até alcançar o alto.
Celebra-se a missa. Quanta devoção, quanto recolhimento, no cume da montanha, onde se sente mais perto de Deus...
Planta-se o cruzeiro.
A emoção toma conta do ambiente. Uma lágrima cai pelas faces de Cônego Marciano. Lágrima de alegria, lágrima de imensurável contentamento.
Olha para baixo. Lá se ergue a Matriz de Santa Rita, de quem é vigário. O casario espalha-se em seu torno, formando uma colméia feliz, confiante nos seus destinos. Padre Marciano sentia, em si, a grandeza da sede de sua paróquia.
Estava entregue a divagações. Absorto. Uma aragem suave acariciava-lhe o rosto.
Morro do Santo Cruzeiro- Por Fátima H.O.A. e Araújo-2005

É despertado pela voz de todos os presentes que cantavam, e bem alto; esforçando-se para que fizesse o canto ecoar pelas quebradas. A música, linda, expressiva. A letra simples, mas significativa, espelhando toda a majestática grandeza do acontecimento:
Viva, viva!
Salve, salve!
Alvorar da Santa Cruz.
www.conheçaminas.com.br Sempre seja
Ao viadante
O farol
Que o sol conduz!
A alegria para Cônego Marciano foi imensa.
E o morro começou a ser chamado de Morro do Santo Cruzeiro.
A denominação foi dada pelo povo.

- Morro do Santo Cruzeiro! É bem bonito. Mas tem um outro melhor para a sua denominação! E este é meu. Bem meu! É mais bonito. Mais expressivo. Faz nos lembrar melhor de Deus e do sofrimento de seu Filho.
Cônego Marciano diz estas palavras. Aponta da janela de sua residência, em direção à colina, que se destaca, bem defronte, enchendo, com suas linhas imensas, maciças, um grande espaço do céu, dilatando o horizonte, levantando-o. Retruca, com entusiasmo e confiança:
- Tive uma inspiração. Aquele morro há de se chamar o Monte Calvário, fazendo-nos lembrar o morro em que Nosso Senhor Jesus Cristo foi sacrificado, na Terra Santa.
E passa a contemplar as encostas da montanha. Como estão sendo beijadas pelo sol? Que aspecto lindo? Que tons admiráveis de luz!
Cônego Marciano entrega-se a muitas considerações. Voluntariamente e com certo prazer as externa a todos que iam visitá-lo.
Passam-se os dias. Derramam-se pela ampulheta, semanas, meses, ano, ano e meio...
Cônego Marciano termina a leitura do breviário. Está olhando para o morro. Tarde quente, o Sol aproximando do ocaso. Cobre apenas a parte superior do morro. Entrega-se o vigário de Santa Rita a meditações:
- Deus manifesta-se grandioso em qualquer aspecto da natureza. Bem podia Ele amparar os enfermos desta minha Freguesia. Vejo tantos que vivem se queixando de frio, fome e morrem de moléstias não tratadas. Eu, um Vigário de Cristo, que hei de fazer?
Pintava, em seus pensamentos e reflexos, um quadro comovente. Contristador... Um espetáculo angustioso que fazia tocar as cordas mais sensíveis de qualquer coração...
O seu coração, aquele seu coração, sempre aberto à caridade, virtude que sintetiza o verdadeiro cristianismo, muito sofria.
Submergia, então, em novas considerações. Os olhos fitos na imensa formação térreo-granítica, acidente que ele próprio denominara Monte Calvário. O morro punha-se bem diante da janela de seus aposentos, de sua cela, de seu tugúrio.
Concebe um plano. Majestoso. Divino. Com entusiasmo, diz:
- Hei de minorar os sofrimentos de todos aqueles que se encontram desprezados pela sorte. De todos infelizes que passam por mim e que vivem por estas redondezas.
Tem por hábito, dar um murro por sobre a mesa, quando descobre meios para realizar os seus intentos, quando encontra um caminho a seguir. Fecha a mão direita, bate com ela sobre a mesa e diz, com ares de vencedor:
-Uma Santa Casa! Vou fundar uma Santa Casa. Ali, os infelizes poderão encontrar refúgio suave e animador contra as suas desventuras.
- “Caridade, flor mimosa e delicada que Deus plantou no coração humano, para que aí crescesse e multiplicasse”.
Lera essa sentença algures. E que bela sentença, que belo ensinamento!
Seria, então, necessária uma casa adequada e aparelhada para que servisse a tão meritório mister. Ele a tinha e oferecia-a de bom gosto. Mas não bastava. Para que a sua Santa Casa tivesse vida, seria preciso um patrimônio capaz de custear as despesas inadiáveis do estabelecimento pio.
Não podia funcionar o estabelecimento, sem meios para mantê-lo.
Estavam, desse modo, frustradas todas as tentativas de seu idealizador. E os recursos lhe faltavam.
Com um murro na mesa, resolve:
- Irei percorrer, esmolando, os Estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, e hei de arranjar o dinheiro suficiente para a fundação e manutenção de minha Santa Casa.
Não o podia fazer, no entanto, devido ao estado de sua saúde.Já não lhe corria pelas veias o mesmo sangue moço dos outros tempos.
Quando se referia a tão empenhada iniciativa, que, de muito lhe vinha preocupando seus cuidados, exclamava-se, queixando-se com tristeza:
- Estou velho já perto da Eternidade. Morro e não fundo a minha Santa Casa. E Nossa Senhora d’Aparecida a quem dei a minha casa, não me protege!
Entrega-se a uma grande tristeza. Mas não se queixa porque adora a Maria Santíssima mais do que sua própria vida. Dela se tornara um fervoroso devoto. E acrescentava sempre:
- Eu me conformo com os decretos insondáveis do Eterno.
Ia amortecendo-lhe o desejo de construir a sua Santa Casa, quando, um dia, Nosso Senhor lhe sugere uma idéia.Recebeu-a, num dia de recolhimento, oração e meditação.
- Hás de construir o Santuário de Nossa Senhora d’Aparecida, no cimo dessa colina elevadíssima, em cuja base está situada a sede de tua Freguesia. A tua Santa Rita querida! Assim, a Santa Casa poderá ser mantida com as esmolas depositadas pelos fiéis aos pés de Nossa Senhora d’ Aparecida do Monte Calvário.
A inspiração partida de Deus, enche-o de coragem. Todas as dificuldades que conturbavam a sua idéia desapareceram. Em seu lugar, solidifica-se a vontade de levar a efeito a grande cruzada, cruzada inspirada por Deus.
Resolve construir a capela no alto do morro.
Ia tudo muito bem. Reuniu material, contratou pedreiros, carpinteiros, serventes. O trabalho foi aparecendo. As paredes iam levantando-se. As torres foram esboçando-se.
Mas decorre uma circunstância. Ao terminar a estrutura do templo, os recursos financeiros periclitam. A obra tem que ser paralisada. O povo já se encontra cansado de contribuir.
- Que fazer?
Essa pergunta caiu por sobre as dificuldades surgidas à frente do vigário. Como se fosse ela um elemento provocador de luz sobre as trevas de um novo embaraço que se antepõe aos anseios do cônego Marciano.
Vê, de sua residência, a construção quase acabada, no alto da montanha. Chora porque não tem recursos financeiros para o término das obras.
Resolve viajar, espalhando os benefícios da Igreja, ampliando os limites de sua paróquia. Volta com algum dinheiro. Mas não o suficiente.
Adquirira, há tempos, um sítio, com pequenas economias. Era o que possuía de bens terrenos. Tornara-se proprietário é por que assim o obrigaram. Teve que comprar as terras a fim de agradar a um de seus paroquianos.
Mais uma vez, o seu desprendimento para os bens terrenos se revela: vende as terras. Termina, assim, com o produto da venda de suas próprias terras, a construção do Santuário.
Para que lhe servem os bens terrenos? Para nada! Não os desejava possuir. Há bem pouco doava a sua própria casa à Santa Casa. De coração, doou, também, suas terras para o término das obras do Santuário de Nossa Senhora d’Aparecida do Monte Calvário.
Decorrem três anos. Os sacrifícios, imensos. Os trabalhos, árduos. Mas a dedicação continua; não desaparece envolto na tormenta das dificuldades. Cônego Marciano se sente cansado. Esmorece...
Mas, lá no alto do antigo morro do Santo Cruzeiro, ergue a linda Capela, com suas torres apontando o infinito.
Guarda ainda os esplendores da festa de inauguração, que duraram um mês. Um mês inteiro... A folhinha marcava o dia 28 de julho. O ano era o de 1912.
O esmorecimento é alentado pelo fato de vê, já aparelhado, o prédio onde há de funcionar o hospital de sua Santa Casa.
Em 17 de novembro de 1914, quando completava os seus 55 anos de existência, fez inaugurar, com a maior pompa, a Santa Casa de Misericórdia de Nossa Senhora d’Aparecida do Monte Calvário. Localizava no prédio por ele doado. Pontilhava-se, no terreno de um alqueire, que lhe servia de quintal.

Cônego Marciano dedica-se, exclusivamente, à sua Santa Casa. Não se cansa em pedir uma esmola para o estabelecimento pio.
Quer ver o hospital crescer. Quer ver o seu patrimônio tomar vulto. E consegue, amparado pela sua força de vontade, que, de ano a ano, acentua-se, fazendo afastar-se de si toda a espécie de dificuldades e desânimos.
A sua residência e hospital representavam um só todo. Todo dinheiro que cai em suas mãos é destinado à manutenção de sua Fundação. As despesas grandes. Mas padre Marciano faz com que os débitos oriundos do funcionamento da Santa Casa sejam solvidos em dia.
Espalha-se, nos dias de hoje, pelo alqueire de terras que doou a Santa Casa, um enorme casario, colocado em algumas ruas estreitas, mas bem limpas e cuidadas. Uma praça espaçosa. Lindo bairro, num vértice suave.
O povo batizou o lugar de Bairro da Santa Casa.
O aforamento ali foi dado, mediante o pagamento anual de dez mil réis, em troca do local para a casa e quintal.

Muitas casas, e boas casas, espalhadas pelas zonas urbana e suburbana de Santa Rita de Jacutinga, pertencem à Santa Casa. Todas elas adquiridas pelo trabalho constante do padre Marciano.
O sonho do filho de Antônio Bernardes da Fonseca, do moço de Desterro do Melo, tornou-se uma das mais belas realidades.
Estavam ali, o Santuário e a Santa Casa.
E, em funcionamento, a Irmandade de Nossa Senhora d’Aparecida do Monte Calvário, criada a fim de zelar pela decência do culto da Capela do Morro do Santo Cruzeiro e manter o hospital da antiga chácara de propriedade do padre Marciano".

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