sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Consagração.
( Texto transcrito do livro de José Marinho de Araujo " Monsenhor Marciano sua vida, sua obra").
Achamo-nos numa pequena localidade situada ao Norte do Desterro do Melo, no município mineiro de Barbacena: Remédios. Assenta-se à margem do ribeirão Brejaúbas.
Tem aspecto sombrio, triste, quieto, de um lugarejo do interior. Uma pequena praça, emoldurada pelo casario pobre. Casa de negócio. População dedicada à agricultura. Muito sossego. Muita poesia.
Transcorre o dia 24 de setembro de 1859.
Celebra-se a missa. A capela cheia. Roceiros, com trajes domingueiros, superlotavam o pequeno recinto da ermida. Pequena para conter a todos.
Terminadas as cerimônias litúrgicas, o povo se dispersa. Pela praça, dominada por modesta capela se espalham os participantes da missa, já terminada, formando grupos, entretendo conversações. Outros procurando a condução de que dispunham: cavalos ou muares. Montam-nos em busca de suas residências.
No interior da ermida, apenas uma senhora. Está só. Entregue as suas orações. Encontra-se ajoelhada, aos pés de Nossa Senhora das Mercês. É a padroeira local. A imagem é venerada num único altar existente. Pequenino, singelo, mas pitoresco. Umas flores naturais e algumas fitas vermelhas e azuis, dele pendidas, completavam-lhe o todo harmonioso.
Genuflexa, a senhora continua imersa em suas preces. O que se passa, então, pode se qualificar como imensurável cena. É comovente. Cena que, transformada em quadro, poderia celebrizar um pintor. Foi uma cena sem testemunhas que pudessem medir a grandeza do ocorrido, a magnitude do gesto, a piedade da ação, o significado exato de uma consagração. Estava, ali, uma quase mãe, a consagrar seu filho a Nossa Senhora das Mercês.
Ajoelhada, contrita, dona Florentina estava esperando um filho. Não pela primeira vez. E, naquela posição de humildade, oferecia aquele à Santa, orago da povoação. Que beleza! Que ato! Que unção espiritual!
-Minha Nossa Senhora das Mercês, eu vos entrego meu filho, próximo ao nascer, na esperança de que, dele, tomais conta, encaminhando-o na vida! Numa vida de santo, do bem e da virtude!...
Duas lágrimas, produzidas pela emoção, rolam pelas suas faces. Caídas daqueles olhos cândidos de mãe extremosa. Daquela criatura que trazia um coração confiante, nos desígnios do céu e na majestática harmonia da Providência Divina.
Confortada, levanta-se da posição de joelhos em que permanecera. Contempla, por mais uma vez, a imagem de Nossa Senhora das Mercês. À espera de que, ela, com algum movimento de cabeça, de olhos, de lábios ou de mãos, aprovasse a oferenda.
Florentina, embalada por uma força vinda das regiões siderais, tem a impressão viva que a Senhora das Mercês, encarnada naquela imagem, ali presente, assentiu na oferta. Aceitou-a, fazendo com que o fruto daquele ventre se transformasse em uma das esperanças da família, seguindo o caminho do bem e da virtude.

- Florentina:
Uma voz grossa, masculina, veio tirar a mulher daquele êxtase, daquela afinidade entre o mundo material e os páramos das coisas divinas. Era o marido que a chamava:
- Florentina, vamos!...
Dona Florentina Cecília de Siqueira sai do colóquio em que se encontrava há muito tempo. Encaminha em direção de seu marido, que a esperava, atônito, bem no centro da capela.
Antônio Bernardes da Fonseca, uma figura respeitável, de agricultor e negociante, acolhe sua esposa. Segura-lhe os braços fortes e sadios.
Ainda estava ela com os olhos rasos d’ água. Ao marido, com voz embargada, externa o seu contentamento:
- Tonho! Nossa Senhora das Mercês vai tomar conta de nosso filho!
Antônio toma a direção do altar. Ajoelha-se. Pede também à Santa, a aprovação da vontade de sua mulher. Endossa o pedido, acompanhado de uma Ave Maria, rezada com a melhor devoção.
Cá fora, um sol claro e radiante iluminava as pastagens verdes. Ao longe, o azul dos morros distantes esmaltava o fundo da paisagem.

Um comentário:

Carlos Ferreira disse...

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