segunda-feira, 27 de outubro de 2008

“....Recebe, com agradável surpresa, de seu Bispo, uma provisão.
Estava designado para Vigário de Santa Rita de Jacutinga.
- Onde ficará essa paróquia?
Sabia, apenas que pertencia ao Bispado de Mariana.E mais nada. Fica num longínqüo recanto da diocese. Para os lados de Juiz de Fora.
Ia Marciano residir numa terra estranha. Povo estranho. Zona muito diferente daquelas em que nascera, vivera e se formara. Tão diferente de Desterro e de Mariana.
Acompanha o documento, uma carta de dom Antônio. Nela, o Bispo declara que este era o seu desejo externado, há tempos, meses antes da ordenação de Marciano. O compromisso assumido teria que ser cumprido. Não podia contrariar o seu Bispo.
- Que fazer, o destino movimentado por um influxo divino, assim o determinava.
Um fato interessante:
A freguesia de Santa Rita de Jacutinga foi criada em julho de 1859.
E, em 17 de novembro do mesmo ano, nasce, em Desterro do Melo, uma criança, que depois de ordenado padre, viria dirigir, espiritualmente a paróquia.
Ocorrência digna de registro.
Estabeleceu-se afinidade entre padre Marciano e a criação de uma paróquia.
A viagem foi longa. Não penosa. Novos panoramas. Novas paisagens encharcaram de fulgor os olhos de Marciano.
Fê-la Marciano, a cavalo. Desde o recanto de Barbacena, onde nascera até o longínqüo recanto do município do Rio Preto, ao qual pertencia Santa Rita de Jacutinga.

Ao passar pelo povoado de São Pedro do Taguá, assentado numa das barrancas do rio Preto, depois de ver a cidade de Rio Preto, já nas proximidades de sua paróquia, padre Marciano para, mais uma vez, a fim de retribuir cumprimentos a um dos residentes do lugar.
É assim interpelado:
- O padre é liberal ou conservador?
Tratava-se de duas correntes partidárias da época, então entregues a um prélio aceso, apaixonado, por todo o Brasil. Os conservadores obedeciam ao Trono, e os liberais faziam-no intensa oposição.
Padre Marciano não teve dificuldade em esclarecer, em mostrar o partido a que pertencia:
- Sou vigário de Santa Rita .
Respondeu, com presteza e acerto, pois a única política, a que sempre desejou abraçar, foi a de servir à Santa Rita, padroeira do lugar a quem a Providência determinou ser ele o pastor de almas.

O povo de Santa Rita de Jacutinga, a localidade nascente entre os rios Bananal e Jacutinga, empurrada para a junção desses, pelo sistema montanhoso ramificante da Mantiqueira, ali estava.
Preparada para receber o novo Vigário, ali se encontrava.
Marciano chega, a cavalo, acompanhado por um tio e um primo.
Entra por uma das ruas da localidade. As janelas enchem- se de rostos femininos, alegres, numa vontade de dar as boas vindas ao novo padre. As portas enchem- se de pessoas ansiosas para o verem
Marciano cumprimenta a todos, com amabilidade e sorrisos que lhe afloravam pelos lábios.
Uma senhora lhe dirige uma pergunta, que o faz parar, em meio da rua, segurando a rédea do animal:
- O senhor é o novo padre daqui?
- Sim, minha senhora, para servir a Deus e à Santa Rita, sou o vosso Vigário.
Fustiga o animal, com uma chicotada. Continua o seu caminho. Ouvidos atentos pega esse comentário daquela senhora que o detera:
- Coitado! É vigário para pouco tempo!...


No largo da Matriz é recebido festivamente. O professor local produz um substancioso discurso de recepção. Muitas palmas, abraços, cumprimentos.
Uma banda de música, regida pelo mesmo professor, executa várias peças de seu repertório.
Os manifestantes afluíram para a residência do professor, no intuito de prestarem homenagem ao novo Vigário.
Padre Marciano foi hóspede, por quatro dias, do professor. Depois dessa estada, aluga uma casa de propriedade de um coronel da Guarda Nacional, negociante na população.















O senhorio, ao entregar- lhe a chave, recomenda-lhe com insistência:
- Peço ao padre não tocar nas couves da horta. É somente a casa que eu alugo.
Mas, dias depois, arrependendo-se da proibição imposta ao vigário, procura-o, querendo ajeitá-lo, abrindo-se em oferecimentos:
- Não, seu vigário. Pode comer as couves, à vontade, porque vejo, no senhor um bom freguês para a minha venda.

A posse, como vigário da Paróquia, se deu, no dia seguinte à sua chegada.
Celebrada a primeira missa em Santa Rita de Jacutinga.
A folhinha marcava o dia 24 de julho de 1887.
Na prática (homilia), apresenta-se aos paroquianos. Manifesta-se contente. Contentíssimo. A alegria lhe é imensa. Não lhe faltaram as lágrimas, produzidas pela emoção. Lágrimas que sempre foram, para o padre Marciano, o corolário de suas emoções, grandes ou pequenas, dolorosas ou de contentamento. Em seus sermões, práticas e discursos, foram elas, como em outras ocasiões, epílogo de homenagem recebida.
Do púlpito, promete a seus paroquianos:
-Hei de trabalhar para o bom nome desta Paróquia! O bem estar de meus paroquianos, terá, em mim, um grande defensor! Hei de amparar todas iniciativas que se me antepuserem, para o vosso bem. Para o bem do povo de Santa Rita, a quem, doravante, passarei a chamar de meu Povo!...”
Trecho do Livro Monsenhor Marciano, sua vida, sua obra. José Marinho de Araújo.

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