sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Cinquenta anos de pároco, assim conta-nos José Marinho de Araujo em seu livro Vida e Obra de Monsenhor Marciano.

-"... São decorridos cinqüenta anos! Lembro-me, muito bem, do dia em que cheguei a esse lugar. Um pequeno povoado, ainda em formação. Não me escapa o nome de qualquer um dos fazendeiros daqui. Eram todos meus amigos. A população era pequena. Toda dedicada à lavoura. Que bons tempos! Como os anos passam!
Assim exclamava o velhinho Monsenhor Marciano. Os anos quase setenta e oito! – pesavam sobre ele, mudando o seu físico. Aquele corpo forte, disposto ao trabalho, já se enfraquecera. Os seus cabelos brancos, respeitáveis, enfeitavam-lhe o rosto coberto de rugas.
- Já batizei avós, filhos e netos. Agora, estou batizando bisnetos!
Cinqüenta anos de serviços prestados à Igreja, em uma só localidade. Mas cinqüenta anos de verdadeiro sacerdócio. Dez lustros de dedicação ao povo a que Deus elegeu para seu rebanho. Vida dedicada a suas ovelhas, somente a elas. A população local tornou-se a família de “Padrinho Vigário”. Era o seu guia e o seu conselheiro. Sempre distribuindo a todos bens espirituais e materiais, a mão cheias.
Bem-aventurados os que praticam o bem pelo amor ao bem.
O tempo decorreu, passando pelo seu bojo, nada menos de meio século. Nesse espaço, a dedicação ímpar, de “Padrinho Vigário”, corporificou-se, derramando-se em exemplos edificantes.
Fortuna da terra, nenhuma. Do céu, graças em profusão. De bens terrenos não amealhou coisa alguma, pois levou existência distribuindo tudo o que caia em sua bolsa, produto de peregrinações pelas serras, à procura de longínquas capelas de sua vasta freguesia.
Praticando o bem, distribuindo-o, sem prescrições, não teve oportunidade para juntar, para si, algum dinheiro que lhe garantisse algum conforto, nos últimos dias de sua vida.
Conseguiu muito. Mas doou-o à Santa Casa de Misericórdia, ao Santuário de Nossa Senhora d’Aparecida do Monte Calvário e aos pobres e necessitados que o cercavam.
Havia pobreza, em sua paróquia. Mas não pedintes, porque “Padrinho Vigário” atendia a todos, numa obra vicentina, sem alardes, sem publicidade.
Por muito tempo, foi chamado pelo nome de “Pai dos Pobres”, até que “Padrinho Vigário” substituísse-lhe o tratamento consagrado por seus paroquianos.
Perguntamos, um dia, a Monsenhor:
- De bens terrenos, Padrinho Vigário só possui a casa em que mora?
- Não, meu filho, nem esta me pertence. Por ser esta a casa em que passei toda a minha existência de vigário daqui, resolvi doá-la ao hospital de minha Santa Casa, o meu estabelecimento pio, fundado por mim e razão de minha existência. Vivo agora para os pobrezinhos de minha Santa Casa.
Pobre nascera, pobre viveu. Mas enriqueceu-se em boas ações prestadas a seus semelhantes.
O seu nome se tornou uma bandeira para as causas locais.
Dignificou a Igreja, exaltou o Bispado. Elevou sua Paróquia. O seu nome não era seu. Como também não era seu, o seu bem. Eram de todos aqueles que o rodeavam. Os seus anseios eram de seu povo. Anseios que sempre redundaram em benefício da coletividade.
O mundo não vale, com seus faustos, suas pompas, suas glórias efêmeras, as preciosidades de certas vidas. Eleitas por Deus se transformam em tesouros que emolduram a Terra, embora pertencendo aos Céus.
Alma e coração de “Padrinho Vigário” se algamaram, desabrochando-se em preces.
E como foi formosa a primeira. Aquela que subiu a Deus, na manhã de 24 de julho de 1887, quando celebrava a sua primeira missa em Santa Rita de Jacutinga.
Estabeleceu ela um liame esplendoroso entre a Terra e o Céu.
E a prece alongou-se, alongou- se, por cinqüenta anos afora, sem solução de continuidade. Tomou forma homogênica, contínua, transformando-se em um todo. Um breviário de horas felizes. Não obstante, aparecerem, entre elas, momentos amargos, eram amenizados, em compensação, por um evangeliar de aleluias. impregnado de Te-Déuns de supremas graças.
Mas, surge, radiante, o dia 24 de julho de 1937, em que se marcou cinqüenta anos de pároco a Padrinho Vigário.
Servir a Deus é uma magnificência. Pra as gerações crepuscularam os sóis desses longos dezoito mil duzentos e cinqüenta dias. Mas a luz que se emana do apóstolo de Santa Rita de Jacutinga, projetou- se, ao longo de suas encruzilhadas, em suas quebradas, em suas serras, nos torcícolos de seus rios, nas grimpas de suas montanhas, nas escarpas e veredas palmilhadas por “Padrinho Vigário”.
Um impregnação de perfume lirial, emanada de sua vida santificada, conservando beatal aroma, aquele mesmo aroma das primeiras horas de sacerdote em Jesus Cristo, forma uma radiante esteira que se debruça pelo ondular da existência, desse trajeto do tempo, desde o dia em que padre Marciano descia de sua montaria, o burro “Mansinho”, no lugarejo que se tornou cidade.
Já se afirmaram que Monsenhor Marciano é Nome e é Vida, que não tem Ocaso, pois nele vive Nosso Senhor Jesus Cristo, Eterno Sol de Eterno Dia.
As virtudes do piedoso Vigário, por força dos fatos, determinaram a que seus paroquianos lhe prestassem grandes homenagens. Prova de gratidão ao grande missionário do Bem.
E a festa alcançou brilho. Tomou aspectos tocantes. A ocasião era oportuna: comemoração das bodas de ouro de Padrinho Vigário. Não foi uma festa, na expressão exata dos acontecimentos. Não foi o que se pode chamar manifestação. O que se realizou, foi além de uma consagração pública. Pelos esplendores, com que se revestiu, transformou-se ela em uma apoteose cívico religiosa.

Santa Rita de Jacutinga, aquele pequeno povoado, vislumbrado por padre Marciano, em 1887, se tornou cidade; mudou de aspecto. Vestiu-se para homenagear a seu santo diretor espiritual. A seu conselheiro e guia.
As ruas íngremes, aterradas e limpas. As casas, parecendo superpostas, apresentavam-se, todas elas, pintadas de novo. A brancura do casario tornava a localidade, ao longe, vista pelas grimpas das montanhas, que ornam a localidade, em um presépio. O pitoresco do conjunto parecia homenagear, também, a seu Vigário.
E porque não? A natureza compartilha, às vezes, das alegrias do homem.
As ruas, todas enfeitadas. Bambus, trazendo a sua verde folhagem, em arco. Bandeiras, em profusão. Conjunto que se fez transformar, em túneis, aquele emaranhado de folhagens verdes e cores variadas do papel de seda e tecidos cortados em bandeiras.
De ponto em ponto, um arco ornamental. Traziam, eles, os mais expressivos dísticos, com palavras dedicadas ao homenageado: “Beneditus Qui venit in nomine Domini”, “Ecce Sacerdos Magnos”, “Viva Monsenhor Marciano”, “Viva Padrinho Vigário”.
Dom Justino José de Sant’Ana, bispo de Juiz de Fora, a cuja diocese pertence a paróquia, veio tomar parte nas homenagens, trazendo consigo, grande número de vigários da diocese. Colegas de estudo do homenageado vieram, de longe, trazerem-lhe o abraço de felicitações.
Bandas de músicas, com seus componentes uniformizados chegam, das localidades vizinhas. Emprestaram às solenidades, realçante concurso. Quando o sol começou a beijar, com seus raios, os altos dos morros, já recolhiam as bandas, vinda do delicioso trabalho de despertar a população, com música alegre. Para a alma do Monsenhor Marciano, aquela música não trazia alegria em princípio, mas, depois de se desembaraçar da emoção, elevava suas preces ao Senhor, agradecendo-lhe todo o bem celestial que ora fazia derramar por-sobre o padre Vigário que serviu sua existência a uma única paróquia.
Chega um trem especial. Os lindos estandartes de associações religiosas de paróquias vizinhas emprestavam grande imponência à localidade. Vinham, em romaria, associar às homenagens.
Monsenhor apresentava-se com uma batina nova, oferecida por seus paroquianos. Se não o fosse, seria visto, como sempre, com aquela velhinha, encardida, cheia de resíduos de rapé. Porque não tinha meios para comprar uma nova. Cuidando dos outros, esquecia- se de sua própria pessoa.
E exclamava:
- Como são bons os meus amigos. Não mereço tanto!
A sua presença de espírito não se conturbou, diante das explosões de contentamento de seus paroquianos.
Passam as primeiras horas do dia. E Padrinho Vigário é visto sempre entregue à preocupação de contar suas anedotas e fatos singulares ocorridos em sua existência.
- Não me esqueço daquelas moças, que se achavam à janela, quando cheguei a este lugar. Elas, quando me avistaram, estava cansado; devido à longa viagem empreendida, envergado sobre o animal. Quiseram tirar conclusões a meu respeito. Viram-me com um aspecto de doente. Fraco. Exclamaram: - “Temos padre para pouco tempo!...” Eu ouvi bem a profecia dessas moças. E ela me impressionou, fortemente... Mas falhou... Que “pouco tempo” tão longo!... Cinquenta anos! Como se enganaram..." José Marinho de Araújo.

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