“Mansinho” é o nome dado aquele burro manso. Não era bem manso. Havia necessidade de um adjetivo mais forte, que condissesse bem as suas qualidades. Era um burro mansinho. Daí, o seu nome “Mansinho”.
Quantas vezes, fez ele a viagem da casa de dona Flor, na fazenda de Leandro Tomaz ao Seminário de Mariana no sagrado mister de trazer e levar o seminarista Marciano?
As férias aproximam-se. Marciano preliba os encantos da viagem. À chegada, o abraço e os beijos de sua mãe. O aconchego ameno e suave de suas irmãs. O dia chega. Seu tio, o bondoso tio José, está aí, puxando, pelo cabresto o manso “Mansinho”. E vão pela estrada, afora, em busca de Desterro do Melo.
Era aquele mesmo burro que voltava à Mariana, devolvendo Marciano à lides do Seminário.
“ Mansinho” conhecia bem os caminhos e encruzilhadas, do trajeto que levava dois dias para ir e dois dias para voltar. O nome exerce grande influência às pessoas, aos animais e às coisas. O burro tornou-se cada vez mais mansinho, levando ao lombo tão preciosa carga.
Aquela parada de descanso, em meio do caminho, onde pernoitava, já lhe tornara bem familiar. Até as ruas de Mariana...
Foi “Mansinho” que conduziu Marciano, já ordenado padre, desde sua a casa de Desterro do Melo até Santa Rita de Jacutinga. Fizera esse longo percurso, trazendo, não o seminarista, mas o padre vigário, colocando-o à frente de sua paróquia, na qualidade de seu diretor espiritual.
Quanto serviço prestou “Mansinho” ao padre! Constantemente era visto, pelas estradas da região, levando-o a inúmeras capelas, no meritório trabalho de distribuição dos sacramentos da Igreja.
- “Mansinho”, você está velho! Não aguenta mais serviço!
Padre Marciano acariciava-lhe a crina. Contemplava o animal. Em seu espírito, o passado de “Mansinho” tomava cores.
- Tanto serviço que você me prestou! Já está velho mesmo, acabado. Vai ter sua carta de alforria. Não trabalhará mais!
De fato, padre Marciano, manda soltar “Mansinho” com a recomendação de que não o fosse apanhado para quaisquer serviços, fossem eles quais fossem. Embora muito leves.
E “Mansinho” gozou da liberdade por muitos anos. Morreu de velho. Teve velhice descansada, sem trabalhos.
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