domingo, 9 de novembro de 2008

Planta da Igreja do Alto. Seu sonho. Acervo de José Marinho de Araújo

..."- Estou velho já perto da Eternidade. Morro e não fundo a minha Santa Casa. E Nossa Senhora d’Aparecida a quem dei a minha casa, não me protege!
Entrega-se a uma grande tristeza. Mas não se queixa porque adora a Maria Santíssima mais do que sua própria vida. Dela se tornara um fervoroso devoto. E acrescentava sempre:
- Eu me conformo com os decretos insondáveis do Eterno.
Ia amortecendo-lhe o desejo de construir a sua Santa Casa, quando, um dia, Nosso Senhor lhe sugere uma idéia.Recebeu-a, num dia de recolhimento, oração e meditação.
- Hás de construir o Santuário de Nossa Senhora d’Aparecida, no cimo dessa colina elevadíssima, em cuja base está situada a sede de tua Freguesia. A tua Santa Rita querida! Assim, a Santa Casa poderá ser mantida com as esmolas depositadas pelos fiéis aos pés de Nossa Senhora d’ Aparecida do Monte Calvário.
A inspiração partida de Deus, enche-o de coragem. Todas as dificuldades que conturbavam a sua idéia desapareceram. Em seu lugar, solidifica-se a vontade de levar a efeito a grande cruzada, cruzada inspirada por Deus.
Resolve construir a capela no alto do morro.
Ia tudo muito bem. Reuniu material, contratou pedreiros, carpinteiros, serventes. O trabalho foi aparecendo. As paredes iam levantando-se. As torres foram esboçando-se.
Mas decorre uma circunstância. Ao terminar a estrutura do templo, os recursos financeiros periclitam. A obra tem que ser paralisada. O povo já se encontra cansado de contribuir.
- Que fazer?
Essa pergunta caiu por sobre as dificuldades surgidas à frente do vigário. Como se fosse ela um elemento provocador de luz sobre as trevas de um novo embaraço que se antepõe aos anseios do cônego Marciano.
Vê, de sua residência, a construção quase acabada, no alto da montanha. Chora porque não tem recursos financeiros para o término das obras.
Resolve viajar, espalhando os benefícios da Igreja, ampliando os limites de sua paróquia. Volta com algum dinheiro. Mas não o suficiente.
Adquirira, há tempos, um sítio, com pequenas economias. Era o que possuía de bens terrenos. Tornara-se proprietário é por que assim o obrigaram. Teve que comprar as terras a fim de agradar a um de seus paroquianos.
Mais uma vez, o seu desprendimento para os bens terrenos se revela: vende as terras. Termina, assim, com o produto da venda de suas próprias terras, a construção do Santuário.
Para que lhe servem os bens terrenos? Para nada! Não os desejava possuir. Há bem pouco doava a sua própria casa à Santa Casa. De coração, doou, também, suas terras para o término das obras do Santuário de Nossa Senhora d’Aparecida do Monte Calvário.
Decorrem três anos. Os sacrifícios, imensos. Os trabalhos, árduos. Mas a dedicação continua; não desaparece envolto na tormenta das dificuldades. Cônego Marciano se sente cansado. Esmorece...
Mas, lá no alto do antigo morro do Santo Cruzeiro, ergue a linda Capela, com suas torres apontando o infinito.
Guarda ainda os esplendores da festa de inauguração, que duraram um mês. Um mês inteiro... A folhinha marcava o dia 28 de julho. O ano era o de 1912.
O esmorecimento é alentado pelo fato de vê, já aparelhado, o prédio onde há de funcionar o hospital de sua Santa Casa.
Em 17 de novembro de 1914, quando completava os seus 55 anos de existência, fez inaugurar, com a maior pompa, a Santa Casa de Misericórdia de Nossa Senhora d’Aparecida do Monte Calvário. Localizava no prédio por ele doado. Pontilhava-se, no terreno de um alqueire, que lhe servia de quintal.

Cônego Marciano dedica-se, exclusivamente, à sua Santa Casa. Não se cansa em pedir uma esmola para o estabelecimento pio.
Quer ver o hospital crescer. Quer ver o seu patrimônio tomar vulto. E consegue, amparado pela sua força de vontade, que, de ano a ano, acentua-se, fazendo afastar-se de si toda a espécie de dificuldades e desânimos.
A sua residência e hospital representavam um só todo. Todo dinheiro que cai em suas mãos é destinado à manutenção de sua Fundação. As despesas grandes. Mas padre Marciano faz com que os débitos oriundos do funcionamento da Santa Casa sejam solvidos em dia.
Espalha-se, nos dias de hoje, pelo alqueire de terras que doou a Santa Casa, um enorme casario, colocado em algumas ruas estreitas, mas bem limpas e cuidadas. Uma praça espaçosa. Lindo bairro, num vértice suave.
O povo batizou o lugar de Bairro da Santa Casa."..... José Marinho de Araújo em seu livro Vida e Obra de Monsenhor Marciano, por FHOAA

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